terça-feira, 20 de outubro de 2015

Para aqueles dias de pouca fé na mudança

Oi :)
Hoje eu estou vindo aqui só para desabafar. Não só desabafar, na verdade; isso teria sido ontem. Mas hoje, depois de uma noite bem dormida eu já consigo olhar o ontem por uma perspectiva mais distante, e a minha vontade é compartilhar isso que me acontece às vezes: um dia em que parece que o trabalho de mudança é tão fenomenalmente gigante e além da nossa vontade, que eu fico questionando todo o esforço que tenho feito, me perguntando se realmente faz alguma diferença.
Acho que a melancolia começou na descida da serra no domingo, passando por Gramado e todas aquelas placas de comida pé-na-jaca que parece ser um dos principais motivos de as pessoas irem pra lá - como comida é uma questão delicada pra mim, com meu histórico de compulsão alimentar, meu olhar sempre percebe essas coisas e fico matutando sobre como se vive pro paladar ainda, como as pessoas se conectam através da comida - fiquei imaginando algumas famílias, que parece que só se vêem pra comer, o que seria da interação entre essas pessoas sem a comida, ou se todo mundo comesse para se nutrir apenas, e não pra agradar paladar, confraternizar, sair de barriga cheia, amenizar as dificuldades do dia, suprir carências, todas essas coisas que a gente faz através da comida e que a sociedade estimula com a oferta muito maior de comida junk coma-enquanto-aguentar do que de comida que nutre?
Depois na chegada na cidade, aquele engarrafamentinho amigo na 116, e me atacou mais forte que o normal a vontade de morar longe daquilo tudo - a fuligem e o ar tóxico, a concentração de gente e de radiação de todo tipo, a água cheia de cloro e flúor, a oferta abundante de todo tipo de anestesiador de consciência, o embotamento do concreto que nos desliga da nossa natureza biológica, que ofusca a nossa conexão com a natureza, a dificuldade de se conseguir alimento orgânico pq dentro de apê a horta que cabe é reduzida...
E ontem de manhã tudo isso juntou com as cenas do caminho pra um compromisso que tive no centro de Canoas, saindo do metrô um senhor acendendo um cigarro com a típica fissura de quem mal espera sair do espaço fechado pra se grudar na nicotina, e na outra mão ele tinha uma caixa grande de remédio - cena metáfora perfeita da nossa doença social: numa mão o que vendem pra matar, na outra o que vendem pra remendar o estrago, em tudo a venda, a promoção da doença - eu estava num estado tão triste que qualquer coisa que eu via já colocava sob esse prisma de estar imersa numa sociedade muito doente e distorcida das possibilidades reais de felicidade.
Para todo lado daquela caminhada eu via os lanches de carne e derivados, as farmácias abarrotadas, as propagandas de festa open bar pra se encachaçar, no whatsapp duas pessoas ficaram batendo boca num grupo do qual eu participo, e chegou num ponto que eu estava questionando tudo, todo o esforço que eu faço, o tempo que gasto pra comer melhor, o esforço de compreensão das pessoas e de fazer mais do que apenas o esperado de mim, a dissociação do grupo na hora das confraternizações por causa de comida e as explicações que tenho que dar por ser a única vegana de todos os meus círculos de convívio, a incompreensão das minhas escolhas que faz a maioria me achar só "a chata", e a indiferença daqueles que entendem meus motivos e não estão ainda no seu momento de mudança - fiquei questionando que diferença eu faço pro mundo com meus produtos de higiene e limpeza naturais, meu não-consumo de derivados animais, minhas idas quinzenais à feira orgânica que me tomam um tempão pois não tenho feira perto de casa, o tempo que gasto explicando pras pessoas o que motiva minhas ações - olhei ao redor e, naquele estado de espírito, senti que nenhuma vaca do mundo estava menos explorada mesmo com todo o meu esforço individual, que a água do esgoto seguia tão cheia de componentes químicos mesmo eu tendo parado com a pílula e com o Ajax, que os lixões seguem abarrotados cada vez mais de tanto incentivo ao consumo, mesmo com a minha composteira e meu cuidado na redução e reutilização, que as toneladas de agrotóxicos seguem sendo despejadas na Terra do mesmo jeito mesmo com meu consumo quase 100% orgânico. Até o benefício pra minha saúde eu questionei, já que todo o meu esforço naquele momento estava me dando uma tristeza que certamente também somatiza e não me deixa assim tão saudável. Tudo o que eu faço que me demanda mais trabalho do que o que as pessoas fazem dentro da normose, tudo ficou com a validação questionada dentro de mim naquelas horas.
"Meu médico diz que eu preciso comer carne!"
Foi assim o dia ontem, de me sentir o menor dos grãos de areia tentando fazer a praia diferente.
Minha pergunta: vcs que buscam ser diferentes da maré, têm dias assim? Isso é coisa que atinge genericamente quem busca ser diferente-pra-melhor, ou é só coisa da natureza melancólica da Fê se manifestando?
Ontem cheguei em casa do trabalho, fiz meu lanche (vegano quase nada cru, já q eu tb compenso emoções na comida), fiquei vendo notícias boas na net, pessoas se envolvendo com ressocialização, ONGs com lindos trabalhos, demonstrações de amor, estatísticas felizes da ampliação da onda do bem, um vídeo lindo do retiro que fiz semana passada, e meu coração foi saindo daquela vibração de desesperança. Fiz mais da minha pasta de dente feita em casa e do meu shampoo de bicarbonato, ouvi uma palestra do Oberom. Fiz o que eu podia pra lembrar que não estou sozinha, e fui dormir tentando não me permitir pensar no estado geral do mundo. E fui pedindo, ao longo do dia, que Deus me sustentasse a fé na mudança que já existe, pra eu não desacreditar do agora. Eu sei, eu sei que o nosso futuro inevitavelmente vai ser de luz, vai ser de um novo nível de relação entre os seres vivos, outro nível de relação com a natureza, com a nossa Terra. Só preciso de ajuda nesses dias em que me sinto solitária no agora, em que eu sinto que não vou dar conta de ser a diferente até que o tal futuro se estabeleça. Mas a verdade é que eu tb não tenho escolha. Eu já tenho as informações, já tenho a consciência. Não poderia voltar a viver como já vivi, como as pessoas vivem. Então o que me resta, realmente, é nutrir minha esperança e reforçar a validade de viver como vivo, buscar as vivências que criam a paz de dentro para fora, introjetar na mente a importância que tem cada consciência vibrando positividade, cada pessoa se alimentando sem demandar violência, cada ato de redução de dano à Terra. Vale sim!!
Acordei bem melhor hoje, conseguindo ver tudo isso que me aconteceu ontem já com distância, e pensando em como não deixar a normalidade me atingir. Preciso meditar. Preciso mais exercício físico. Preciso simplificar minha rotina e ter algum tempo pra descansar. Preciso reforçar minha espiritualidade. Cada vez mais acho que os recursos que a espiritualidade dá são os que realmente nos salvam da amargura e da desesperança, quando a gente tenta viver diferente. Pq o negócio todo é ser feliz, e por mais que a realidade nos doa, não pode estar certo se permitir tristeza constante diante do que há, e amargura pela solidão do caminho alternativo. Felicidade se constrói dentro de nós, na nossa casa mental e emocional, a partir do nosso lastro espiritual.
Vou acabar com uma tirada ótima de um amigo querido - ele mora numa terra linda num lugar afastado, servindo à ideia de uma nova consciência, totalmente de acordo com tudo o que eu busco pra mim, recebendo pessoas em retiro para vivenciarem esse novo mundo. Um dia ele foi na cidade mais próxima da terra em que mora e, na fila do mercado, alguém lhe disse "E aí, então, tá visitando a civilização?" e ele respondeu muitíssimo espirituoso "Pois é, vim visitar o passado".
Hoje eu peço, pra mim e para as pessoas já vibrando uma nova realidade, resiliência pra sobreviver à civilização do passado que nos circunda no presente. Fé, galera, esperança pra nós.





sábado, 17 de outubro de 2015

O preço da carga horária

Oi queridos!
Tenho visto notícias sobre a experimentação de mudança de carga horária na Suécia, para 30 horas semanais. Vcs viram?
Adorei isso vindo à tona como assunto de discussão.

Experiência própria: 6 horas de trabalho focado rendem MUITO, muitas vezes mais do que 8 horas e a noção de que, se vamos passar o dia todo no trabalho mesmo, então vamos aproveitar pra checar emails, pagar contas, essas coisas da vida pessoal, e vamos tomar cafés pra tocar o dia, levantar pra espairecer e trocar uma ideia com os colegas, as letras bailam na tela do PC depois do almoço, vai mais café, olha o celular...
Acho bem bizarro pensar o quão pouco sobra de tempo de vida quando se trabalha 8h, almoça 1h ou mais, desloca 1h pra ir e 1h pra voltar = 11h úteis do dia envolvido com o que pra muita gente é só o meio de ter viabilidade material na vida. É realmente dar a vida por dinheiro, e sem ter muito pra onde correr, pq é muito difícil achar na maior parte do mundo um emprego que dê opção a esse esquema de falta de vida.
Aí não é de se estranhar que as pessoas terceirizem o cuidado com sua alimentação, com suas casas, com sua saúde, que negligenciem a sustentabilidade do planeta, o exercício de cidadania... esses dias ouvi: "minha mãe, que é aposentada e tem tempo pra essas coisas, separa lixo... a gente, que vive correndo, não tem como atentar pra essas coisas" - que sistema tão bem pensado esse capitalismo selvagem na ilusão da alegria consumista! Faz as pessoas correrem por dinheiro, e na corrida por dinheiro ficam tão sem tempo que não se dão conta das coisas realmente importantes, nem conseguem parar pra pensar o que será que é que tá faltando que faz elas seguirem correndo atrás de coisas, e trabalhando mais e mais pra ter o dinheiro de consegui-las!
Claro que tem pessoas que conseguem sentir tédio nas horas "vagas" mesmo trabalhando 44 horas por semana, mas quando a gente se abre pra necessidade de cuidar de todas as esferas da nossa vida, simplesmente não sobra espaço para ociosidade não criativa. Tentar fazer parte do ciclo da natureza é um esforço ativo quanto mais na cidade a gente mora - reaproveitamento de água, de matéria orgânica, cultivos, tudo isso demanda tempo; participação cidadã, acompanhar projetos de lei e opinar, mandar emails para agentes políticos e se envolver em manifestações, ativismos de todo tipo; cuidado com a saúde, aprendizados sobre nutrição, buscar seu alimento orgânico, local e agroecológico, fazer a própria comida; ler e praticar yoga, meditação, ou a prática de espiritualidade da sua escolha, tudo isso demanda tempo, e é parte muito real das responsabilidades humanas! Tão esquecidos andamos dessas responsabilidades, que se vincula o trabalho, pagar contas e o leva-e-traz dos filhos às únicas responsabilidades de uma vida. E aí a gente vê por aí tantas crianças emocionais, com dificuldade de lidar com suas questões mal resolvidas, tomando remédio como se fosse bala, e dá-lhe tv pra não pensar; tantos absolutamente insensíveis ao dano que a nossa sociedade causa à Terra, tantos reclamadores do estado da política e da gestão pública sem que façam o que lhes cabe como cidadãos pra melhorar as coisas (ainda que pouco consigamos mudar, mesmo sendo muito ativos nessa área da cidadania... é o que nos cabe).
Com a vida dedicada a conseguir dinheiro, não sobra tempo pras essas responsabilidades muito reais, quanto mais para a arte, para a beleza, para a contemplação - pior que essas coisas tb, deram um jeito de gourmetizar e fazer virarem eventos de vaidade, de "ver e ser visto" em vez de serem instrumentos de internalização verdadeira, de conexão real com o todo.
Esse assunto do tempo gasto no trabalho puxa muitos outros e fácil a gente vê o quanto ele se relaciona com a sustentação da matrix que mantém as pessoas dormentes.

Por isso minha alegria de ver a Suécia puxando o bonde. É preciso parar com essa mentalidade de que quem trabalha 6h (no Brasil, possibilidade principalmente de algumas classes profissionais e alguns órgãos públicos apenas) é vagabundo, e pra mudar essa mentalidade é importante que se mostre ao mundo que isso é viável para empresas, que a produtividade compensa, que a sociedade toda se beneficia pela saúde mental que permite aos trabalhadores. Quanto à necessidade de se trabalhar para viver, é uma reflexão bem mais profunda... mas, considerando que alguma demanda por moeda de troca existirá na vida de todos, e que trabalho com esse fim existirá também, pelo menos se pode afirmar: a vida não pode ser gasta inteira nessa troca de tempo por dinheiro, nós somos MUITO mais que isso!
Termino confirmando o título dessa reportagem muito legal sobre o assunto: ninguém deveria se orgulhar de trabalhar muito. (trecho: "Para compensar o corte de horas, foi pedido aos funcionários da Filumundus que não entrassem nas redes sociais durante o expediente e que evitassem outras distrações. As reuniões também foram reduzidas ao mínimo. Feldt garante que não só a produtividade permaneceu igual, como os pequenos conflitos do dia a dia diminuíram e as pessoas estão mais motivadas. "Na verdade elas estão mais felizes e descansadas.")

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Ode racional ao amor

Bommm dia chuvoso aqui nas paragens do RS :)
Faz tempo que eu penso em falar sobre a importância do amor, de deixar o amor ser a ótica de uma vida.
Não o amor romântico, ou o amor aos familiares e amigos; aquele amor universal e fraterno, do qual a gente ouve falar geralmente em contextos religiosos.
Aí mesmo que reside o problema: tanto se ouviu falar dele nos contextos religiosos, que a pessoa que refuta a religião acaba refutando junto a atenção ao exercício desse amor. Eu entendo o exercício do amor como uma manifestação da nossa dimensão espiritual, como aquilo que remete ao que nos é essencial, ao que se passa dentro de nós e ao como funcionamos, o que nos vincula com o motivo de estarmos aqui, com o que nos faz felizes e justificados na vida. Entre religião e espiritualidade pode haver a distância do universo - é absolutamente possível uma pessoa ter uma ótima relação com sua espiritualidade e não ter religião, assim como o contrário... aquelas pessoas que estão vinculadas a religiões sem que isso seja um instrumento de mudança de percepção, autoconhecimento, conexão interior.
É triste que muito se confunda espiritualidade com religiosidade e que não se perceba que há sim muito espaço para o desenvolvimento da espiritualidade dentro dos grupos religiosos, ainda que o que se veja mais (acredito que não por serem em maior quantidade, mas por fazerem mais esparro e se tornarem mais visíveis) sejam exemplos de intolerância e fundamentalismo, paradoxalmente opostos à ideia do amor.
É que, esse amor aí assunto do post, quem deu mais publicidade para essa ideia aqui nas paragens do Ocidente foi Jesus. E como fundamentalismo religioso começou há séculos infindáveis, quando finalmente a nossa civilização conseguiu sair do jugo da Igreja, no fim da Idade Média, se convencionou que as coisas da matéria seriam assunto da ciência, e as coisas do espírito seriam assunto da religião, e cada uma ficaria no seu quadrado. Essa dualidade foi extremamente válida como ruptura de uma época em que a tal autoridade religiosa determinava a vida das pessoas, atendendo a seus interesses escusos - tenho certeza de que todos já ouviram o suficiente acerca das atrocidades cometidas nesse período, e tb sei que é o motivo pelo qual muitos ainda se mantém completamente distanciados de qualquer possibilidade espiritual e religiosa.
Infelizmente, nessa separação muito necessária à época do Renascimento, Jesus e suas ideias ficaram relegados ao campo da religião. E desde lá tem sido assim - 500 anos em que muitas coisas mudaram, em que novas formas de usar Jesus para fins particulares duvidosos surgiram, e em que muitas pessoas maravilhosas não querem nem ouvir falar de Jesus, de tanto ranço histórico.
Só que Jesus não instituiu religião nenhuma. Ele foi divulgador de uma ideia, a de aplicar o amor como ótica em todas, todas as áreas da vida. E esse amor universal fraterno se traveste de muitas outras virtudes: otimismo, gratidão, compaixão, resiliência, humildade, pacificidade, pureza de coração.
Já que Jesus foi posto de lado com suas ideias, a caracterização da pessoa de bem na sociedade acabou ficando restrita ao "pago minhas contas e impostos, não mato, não roubo, trabalho pesado pra ter minhas coisas, crio bem meus filhos, amo meus pais". Tudo isso é muito importante, não há dúvidas; esse é o básico da parte prática da vida. Mas com que olhar, com que ótica de mundo se vive? Vejo muitas pessoas que seguem essa correção de caráter na vida prática e que:
- reclamam de tudo e de todos o tempo todo,
- só xingam governo de qualquer partido, seja o governo causa ou não do problema sendo discutido, 
- surtam quando a vida apresenta alguma dificuldade maior, botando a culpa do surto na dificuldade,
- acham que tudo sempre vai dar errado, que tudo só tende a piorar, e que o pior sempre acontece com elas,
- acham muito bonito não levar desaforo pra casa e sair por cima quando se sentiram provocadas,
- acham que nunca têm o bastante de saúde, de atenção, de dinheiro, de condições de vida,
- acham que qualquer aparente boa ação deve ter um segundo interesse por trás,
- julgam muitas pessoas como vagabundas, encostadas, incompetentes, egoístas, orgulhosas, etc etc etc.
Vc também deve conhecer, né?

E os homens da ciência acadêmica, tão envaidecidos do seu monopólio da verdade, se esquecem de que ao longo desses séculos desprezaram e riram da cara de muitas pessoas que vieram expor suas ideias verdadeiras, e não aprenderam a lição de humildade de que toda ideia plausível merece respeito, até que seja confirmada ou refutada.
Vcs já viram o discurso do Chaplin naquele filme de 1940, o Grande Ditador?
Tem uma hora em que ele diz assim:
"Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido."
Quem não ouviu ainda, ouça todo, ou leia todo, vale MUITO a pena.
Pois é, Chaplin. Que pena que um dia se convencionou que amor, otimismo, gratidão, compaixão, resiliência, humildade, pacificidade, pureza de coração eram coisas de religião, coisa para gente inocente a ponto de cair na lábia dos que usavam e usam Jesus para seus interesses. As pessoas estudadas aprendem tb nos seus estudos a rir daquelas que cultivam essas ideias: pobres ignorantes, o que seria deles se não fôssemos nós a pensar os rumos do mundo e da nação, a assistir jornal pra citar as estatísticas na fila do banco e na roda do bar? Que pena que daquele dualismo entre ciência e religião tenha resultado uma sociedade tendente a niilista, cética, sarcástica, apocalíptica.
Aí o mundo está inundado em antidepressivos e vai ficando claro que viver na receita de bolo da nossa sociedade não ajuda as pessoas a serem felizes. Aí a física começou a dar indícios de que a realidade é afetada pela intenção do observador, e pensar positivo não parece mais tão absurdo. E as pessoas vão se abrindo pra necessidade de algo mais do que ser um cidadão com práticas corretas. Vai ver tinha alguma filosofia mais profunda por trás da aparente ignorância ou superficialidade daqueles que falam de amor e vivem sorrindo.
Na verdade Jesus falava de amor como forma prática de lidar com adversidades, com as pessoas difíceis, com os bens materiais, com a família, com a dor dos outros, pois amor não pode ficar só no discurso, ou só na ida semanal à igreja ou ao culto. Amor é ótica de vida em todos os momentos práticos da jornada.
Então, a conclusão desse falatório todo é: não refute o amor universal e fraterno sem realmente buscar informações, sem ler a respeito. Quem faz isso de cabeça aberta, sem preconceito, enxerga as vantagens de buscar essa ótica. A vida feliz só se sustenta a longo prazo se o bem que se buscar for o de todos e não só o do próprio umbigo; e a saúde mental e física depende de nutrir bons sentimentos e pensamentos (ciência cada vez mais tendo que se abrir para as evidências disso, apesar de parecer preferir não acolher hipóteses a respeito das causas dessa influência das esferas sutis no corpo físico). Não precisa pensar em Jesus se não quiser, essas ideias não são monopólio dele. Amor é trabalho de autoconhecimento e reflexo nas relações com o mundo externo. É como Deus, que também responde por Universo e suas regras. Chame como quiser, mas abra sua cabeça pra viver mais consciente dos seus pensamentos e palavras, mais consciente de si, das pessoas, do nosso mundo.
Falando por mim agora: eu vivo a minha espiritualidade com pleno, pleno respaldo da minha racionalidade, dos meus estudos pessoais, da minha graduação em Biologia. Mais ainda agora, com a pós-graduação que estou fazendo em Saúde e Espiritualidade, com toda a gama ampla de informações e a nova consciência que vem se abrindo para mim no último ano. Meu voto é o de buscar ver sempre o melhor da vida mesmo nas dificuldades, é de encontrar finalidade para a minha existência, é de tentar fazer parte da solução de forma prática, é de tentar não abrir a boca se não for pra falar algo bom e útil. Não emito medo e violência se não quero entrar nessa vibração e receber isso de volta. Busco me comprometer com a Vida nas suas diversas manifestações - falar e cumprir, ser correta e dedicada no meu trabalho, não mentir, não zombar, manter minhas relações, cuidar das coisas materiais que consegui/ganhei/peguei emprestado, buscar palavras gentis e tantas outras formas - e sei que a vida se compromete comigo em retorno.
Amar e mudar as coisas, mudar com meus atos, com minhas escolhas e com minha cidadania, e com minhas palavras e pensamentos, vibrar esperança e confiança em um universo de abundância, sintonia e beleza. Funciona. Me mantém sorrindo.
Bjs :)


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Aprendizados da imersão no veneno

Olá, queridos!
Tô aqui pensando que tenho feito cada textão no blog que deve dar preguiça nas pessoas de ler... mas esses primeiros posts não consigo que sejam diferentes, pois estou tentando dar uma geral, minha opinião e referências em cada tema que me interessa. A outra opção é que eu seja uma prolixa incurável mesmo e vá ser sempre assim kkkkkk... mas nem que seja pelo tempo, que tenderá a ficar mais escasso a partir dessa semana, o ritmo de blablabla vai diminuir :)
Quero compartilhar com vcs uma oportunidade incrível que eu tive, no dia 24 de agosto desse ano: participei de um seminário de dia inteiro na Unisinos, de graça e sem ser aluna, em que ouvi alguns dos pesquisadores e profissionais mais atuantes na conscientização sobre os danos à saúde causados pelos agrotóxicos. Foi um seminário de extensão e de lançamento do Dossiê Abrasco, do qual eu já falei na página Links, preciosos links. O dossiê tem por objetivo chamar atenção da sociedade e do governo sobre esses danos. O auditório estava cheio de profissionais e estudantes das mais variadas áreas - uma alegria pensar que todas aquelas pessoas (e tantas mais pelo Brasil, nos diversos eventos sobre o dossiê) compartilharam essas informações que me desvendavam uma verdade muito pior do que aquela noção vaga que a gente tem, "ah, usam defensivo pra evitar lagarta né? Mas se não for assim não rende a produção, paciência...". Minha gratidão à Unisinos e aos palestrantes está aqui, na forma de propagação de algumas coisas que aprendi.
Foi um dia de desconstrução completa do que o agronegócio e as gigantes da transgenia e seus tentáculos acadêmicos me fizeram acreditar.

E vc, também acredita?
Que sem eles o Brasil passaria fome e que a agricultura familiar não tem volume para alimentar o povo? Sabia que vai quase tudo pra alimentar os bichos de corte e exportação? E que com 25% das terras cultivadas do Brasil a agricultura familiar produz 70% do alimento do país? E que houve grande pressão da bancada ruralista contra o presidente do IBGE na época em que o censo agropecuário de 2006 saiu evidenciando isso? De forma geral, que a bancada ruralista trabalha defendendo apenas o interesse econômico dos seus representados, sem compromisso com a nossa saúde?
Te fizeram acreditar que aquele agrotóxico aprovado com base no estudo "científico" feito dentro do laboratório da empresa que o vende é seguro pra a saúde, mesmo quando combinado com os outros 2, 3 tipos de agrotóxicos que muitas vezes ocorrem combinados num cultivo e que não participaram do estudo (entre tantas outras fragilidades de método de pesquisa)? Sabia que a lei do Brasil garante uma licença eterna de uso para cada novo agrotóxico aprovado, sem necessidade de revisão periódica da autorização, para verificação se novos estudos atestaram seus riscos? E que a comunidade científica isenta só tem acesso a novas criações das grandes empresas de transgenia depois de seus produtos já estarem no mercado e ao rumo da sua mesa? Por isso o crescimento do mercado de agrotóxicos no Brasil é vezes maior que o mundial: a nossa lei está muito mais preocupada com os avanços do agronegócio do que com a nossa saúde.
Te fizeram acreditar que produto orgânico é caro e por isso coisa pra rico? Já pensou em embutir o dinheiro q sai do governo - e, portanto, do seu bolso - para subsidiar os incomparáveis créditos que só os grandes produtores dentro do esquema químico-dependente conseguem, os custos mais mensuráveis do SUS com intoxicações agudas por agrotóxico principalmente na população rural, os custos imensuráveis e ainda largamente desconhecidos dos danos crônicos acumulados em toda a população? Segundo um estudo realizado nas propriedades rurais do Paraná, cada dólar gasto na compra de agrotóxicos pode custar 1,28 dólares aos cofres públicos em futuros gastos com casos de intoxicação aguda na população. E ainda, o dano inestimável de ir sugando a terra de forma predatória e deixando para trás, como faz o modelo atual de produção de larga escala?
Acredita que o governo está defendendo o SEU interesse, quando o legislativo faz projeto de lei pra tornar praticamente impossível reconhecer transgenia em um produto? Sabia que a trangenia comercial é principalmente intencionada para provocar venda casada de semente com agrotóxico? Os transgênicos no mercado objetivam resistência da planta a pesticida/herbicida, e não aumento de produtividade - a tal tecnologia acaba necessariamente implicando veneno no prato. Sabia também que numa monocultura, devido ao desenvolvimento de resistência das ervas "daninhas" aos herbicidas, é necessário aplicar cada vez mais pesticida para se ter o mesmo resultado? Sabia que a carne comercializada vem com todo esse histórico de veneno, já que um dos principais destinos da produção do agronegócio é alimentar rebanho? 
E, bem do lado, muitas vezes tem uma escola rural.
A mídia comprada te fez acreditar que reforma agrária é só coisa de comunista pra beneficiar vagabundo, que os movimentos pró reforma agrária só têm um bando de baderneiros invasores e destruidores? Sabia que as famílias assentadas são responsáveis por uma parcela enorme da produção de alimentos do país, que militam em resistência a todo esse esquema que te faz financiar o próprio envenenamento, fazem bancos de sementes crioulas, entre tantas outras atividades de conscientização? Sabe que existe uma rede enorme de profissionais e pesquisadores sérios e de muito conhecimento científico defendendo a reforma agrária como viabilizadora da agricultura familiar ecológica e componente da solução para a nossa saúde e para o bem estar social, ao permitir existência digna no campo para um contingente significativo de cidadãos? Sabia que cooperativas de famílias assentadas têm produtividade de alta escala no cultivo orgânico?
Te fizeram acreditar que, se o governo permite que se venda, se tá no mercado, claro que o produto deve ser seguro? Sabia que o Conselho Técnico Nacional de Biossegurança nunca negou uma licença de novo agrotóxico, e que quando a comunidade científica luta muito para retirar um agrotóxico já licenciado mas cheio de estudos mostrando danos e o Conselho acata o banimento, as empresas entram com liminares e judicializam a questão por anos, enquanto o agrotóxico segue aos litros sendo absorvido pelas plantinhas que vão pra mesa depois? Eu sabia quase nada de tudo isso. Por que não vemos mais dessas notícias e informações que linkei na grande mídia?

Instrua-se, e se vc não gosta da ideia de financiar seu próprio envenenamento, atue! Ser um cidadão numa sociedade com quase tudo por construir a fim de termos um país decente para todos não é só pagar os impostos e esperar de volta um funcionamento perfeito do estado. A nossa responsabilidade é muito maior! Cada vez mais eu concordo com o cartaz que vi no Bonobo, espaço vegano e libertário de Porto Alegre: no capitalismo, não é uma pessoa=um voto; é um real=um voto. Dinheiro manda no lobby, que manda nos políticos, que mandam nas políticas públicas que interferem diretamente na sua vida.
Defina o que vc financia, enxergue por trás do produto no mercado, o que a sua cadeia produtiva significa para a nossa sociedade. Apoie as feiras orgânicas - descubra o que há de agroecologia na sua cidade (esse mapa das feiras é o ouro!), e se não há pressione a prefeitura, os vereadores. Se vc entende, como eu, que os agrotóxicos, as empresas de transgenia, o agronegócio e a bancada ruralista prestam um desserviço à nossa sociedade e nossa saúde, boicote os produtos transgênicos, como praticamente toda a soja e o milho que temos por aqui, e todo produto de origem animal, indústria sustentada pelos mesmos grãos. Não tenha medo de mudar hábitos sociais e alimentares em resposta às suas convicções, pois ter a consciência tranquila e atuante no despertar de outras consciências tem um gosto muito melhor que qualquer comida. Confronte as informações com fontes pró-agronegócio e se posicione.
Tudo o que vc quiser saber sobre o assunto, numa revisão bibliográfica imperdível, elaborada por uma rede vasta de pesquisadores que abraçam a causa e lutam pela nossa saúde desinteressadamente, vc pode achar no dossiê Abrasco, disponível por completo no site, nova edição ampliada recém lançada e livre para todos, direitos autorais abdicados. No site tem também documentários imperdíveis.
Eu passei muito tempo achando que, por abominar o jogo de interesses predominante na politica partidária, eu poderia viver de forma alheia à normatização da sociedade, trabalhando só meu autoconhecimento, minha evolução espiritual pra buscar ser uma pessoa melhor para mim e para o meu próximo, como diz no evangelho que eu muito amo; estudando, buscando dar o meu melhor no meu trabalho e para as pessoas do meu convívio, fazendo um ou outro trabalho assistencial voluntário. Hoje eu vejo que me posicionar nos atos que me tornam parte da sociedade é sim fazer política, é exercer cidadania. Isso não demanda filiação partidária, é o que devíamos todos ser incentivados a fazer desde criança, mas cadê incentivo? Cuidar meu consumo também é agir com amor e compaixão pelos afetados para a produção dos objetos de consumo. Não me importa que a diferença que eu possa fazer, individualmente, seja pequena. O idealismo só não vira amargura diante da realidade quando é carregado de amor e de esperança, e essas eu cultivarei para sempre.
Querendo ouvir gente com efetiva propriedade pra falar sobre esses tópicos, pesquise-os: Fernando Ferreira Carneiro; Karen Friedrich; Leonardo Melgarejo. Assista aos documentários no youtube O veneno está na mesa e O veneno está na mesa II. Só pra fechar com uma informação pontual, veja o nível do absurdo nesse vídeo curtinho do Michael Pollan, sobre os agrotóxicos na batata do McDonalds.

Esse assunto me interessa muito, quem quiser compartilhar outros vídeos e textos que acrescentem, por favor, mandem!! Eu demorei muito para despertar para a responsabilidade de cuidar melhor do meu corpo, trocar a ótica do fazer dieta pelo respeito com o meu corpo, veículo de manifestação nesse plano de consciência. Eu tenho intenção de viver MUITO, e cheia de saúde, e hoje sei que estou fazendo o que posso por merecer esse futuro! Amar o nosso corpo, um assunto tão necessário nesses tempos de aparência ditando as relações, é bem mais fácil quando a gente o vê pela ótica da liberdade que só a saúde dá, em vez de pelo que determinaram que é o bonito e desejável em aparência através do julgamento dos outros.
E vamos em frente, com amor, com coerência, respeitando o ritmo do nosso passo, mas sem tardar ;-)
Abraços com carinho,

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Pra quem está pensando em parar de comer carne

Escrevi esse post em 2015, enquanto ainda era vegana; hoje não sou mais, como contei aqui. Deixo o post em sua forma original, sendo que o P.S. lá no fim escrevi agora, no fim de 2016.

Oi!
Esse assunto aqui foi o primeiro que me motivou a começar a escrever este blog. No fim eu mudei um pouco a ordem das coisas, como eu contei em Bem vindo!, mas sem dúvidas é com muito cuidado e carinho que eu venho afinal falar sobre os meus motivos para parar com a carne e os demais produtos de origem animal.
Primeiro, questão de ordem: minha intenção é falar disso pra quem, como diz o título, já pensou no assunto alguma vez e o considerou razoável, ou pelo menos está aberto pra aprendizados e mudanças diante de novas informações. Falar para quem não quer ouvir é infrutífero e ainda gera conflito, e essa absolutamente não é a intenção. Então, se vc já abriu o coração para considerar essa possibilidade, é pra VC que eu estou falando!
Os motivos que levam à transição para o vegetarianismo costumam ser de quatro tipos (entenda a nomenclatura aqui! Vegetarianismo estrito é o hábito alimentar de quem não come carne e derivados; o vegano é o que tem por filosofia de vida levar a consciência da exploração animal para todos os âmbitos da vida): ser ético em relação ao sofrimento animal; não colaborar para a degradação ecológica que o consumo de carne causa; não compactuar com a desigualdade social que leva poucos a comerem um alimento ecologicamente caro para produzir enquanto outros passam fome; e promover saúde. É totalmente o combo da coerência e do bem, ainda mais se associado a outros hábitos! Para cada pessoa, algum ou alguns desses motivos pesa mais ou pesa exclusivamente, mas independentemente das motivações o efeito benéfico em todas as áreas é inevitável hehe.

Quanto ao sofrimento animal: 
É simples: se vc ama e protege seu bichinho de estimação, porque não estender o mesmo cuidado a algumas espécies ditas comestíveis? Percebe que é apenas uma questão cultural gostar de um e comer o outro, e que isso é incoerente? E mais: se a ideia de testemunhar um abate, uma debicagem, uma trituração de pintinhos, ou se a ideia de vc mesmo abater um animal para comer te desagrada, algo não está fechando no seu consumo de carne. 
A dra. Melanie Joy explica em 18 min: a alimentação com produtos de origem animal é um sistema de crenças, visto que comer carne É uma escolha, assim como o veganismo é um sistema de crenças que motiva uma escolha, que é não comê-los. A questão é que o consumo de carne é um sistema de crenças tão dominante que as pessoas nem se dão conta que ele existe, ninguém nos pergunta quando a gente é criança se a gente escolhe comer carne ou não. A crença na necessidade de proteína animal é enraizada na sociedade, é generalizada mesmo indo contra o nosso senso natural de gostar de animais. Não se consegue carne sem violência contra o ser vivo senciente, e isso contraria os nossos valores fundamentais, como compaixão e justiça; por isso o sistema precisa usar mecanismos de defesa para que pessoas compassivas e racionais participem de práticas de violência sem se darem conta plenamente do que estão fazendo. Desde crianças temos o nosso amor natural por animais adormecido para as espécies "comestíveis", existe a crença de que estes comestíveis são "burros" e "todos iguais", o sofrimento na "produção" de carne é devidamente escondido, tudo para que a gente consuma sem questionar.
Ela chama este sistema de crenças de carnismo, e diz que o carnismo é responsável por fazer pessoas boas e compassivas nunca pararem para se questionar e reconhecer como crueldade contra uma vaca ou galinha o que facilmente assim reconheceriam, se fosse imposto a um cachorro ou gato. Faz parte desse sistema de crenças o especismo, a ideia de que a vida humana tem mais valor que a vida de um animal, da mesma forma que o racismo lida com raças. Faz parte do sistema as aparentes soluções para livrar a consciência, como o selo de bem-estar animal e o tal abate humanizado, que são uma incongruência visto que o fim segue sendo morrer para virar carne para o homem, servindo no fim como um anestesiador de consciências - quando não acontece de um ativista conseguir entrar nos galpões e matadouros e ver que de compassivo esse sistema não tem nada.
Faz parte das defesas do carnismo que os veganos sejam retratados frequentemente como excessivamente emocionais e sensíveis, sugerindo-se com isso uma falta de razoabilidade, ou mesmo uma irracionalidade - o que é uma forma muito poderosa de desacreditar a mensagem que os veganos trazem. Esta estratégia não é nada nova. As pessoas que lutaram pela abolição da escravatura humana, por exemplo, foram chamadas de sentimentais. Se em algum momento vc já se sentiu agredido pela argumentação de um vegano sobre o consumo de carne, entenda: não se aponta o dedo para pessoas, se aponta o dedo para o sistema! E como ele condicionou pessoas boas a agirem como pessoas sem compaixão. Acordar para isso é um resgate da compaixão que nasceu dentro de vc e que foi desaprendida.
Quanto à sustentabilidade ambiental:
Acho que nada que uma pessoa possa fazer individualmente, em termos de mudança de hábitos, pode ser tão significativo para o ambiente quanto parar de demandar carne e demais produtos de origem animal. A coisa é INACREDITÁVEL, se alguém tivesse que chutar os valores dos gráficos abaixo, duvido muitíssimo que chegaria perto. Somando os danos, a conta só do prejuízo ambiental fica assim: para cada 1 real de lucro no bolsinho do pecuarista, o mundo arca com 22 reais de prejuízo ambiental. Pode economizar água em casa, cuidar a pegada de carbono, a pessoa pode se revirar em mudanças de hábitos e sacrifícios e, ainda assim, abdicar do bife teria mais resultado. Não adianta: sustentabilidade e veganismo andam juntos.



Quanto à sustentabilidade social: 
A quantidade de campo demandada para "fazer" um kg de carne daria para produzir tanto produto vegetal que logo se conclui o quanto a carne é um alimento da desigualdade. No Brasil, vemos menos essa diferença de custo pois há um grande estímulo financeiro por parte do governo para o agronegócio (estamos pagando por isso!), há abundância de terras aliada com a não responsabilização financeira pela degradação e demais danos ecológicos causados pela pecuária. Mas tente comer um bife na Europa pra ver quanto custa ;-) Imagine o preço (caso haja disponibilidade) de carne nos lugares mais pobres do mundo. Aí fazem altas estratégias pra reduzir o problema da sustentabilidade ambiental e social, reduzindo a área em que os bichos ficam, enchendo de hormônios pra crescerem rápido e gerarem menos gases antes de irem pra faca - ou seja, são manipulados como coisas, desconsiderados totalmente como seres a fim de seu consumo ser mais "sustentável" - por que não parar, apenas?
Uma das grandes falácias contra o vegetarianismo é que é uma dieta de rico. Grãos, verduras e frutas são MUITO mais baratos que produtos de origem animal, mesmo aqui no Brasil - ainda mais quando se passa a cozinhar mais e comer menos hambúrguer de 20 reais no McDonalds. Baratos no bolso e baratos pro planeta! Claro que tem os produtos veg gourmetizados, da mesma forma que tem os produtos carnistas gourmetizados - e são todos desnecessários pra se nutrir bem, e eu até diria contraproducentes no caso de ultraprocessados veg.
Além disso, a maior parte da produção de grãos dos grandes latifúndios vai para alimentar animais de corte, então tudo o que vc porventura tenha de opinião contrária sobre o agronegócio, transgênicos e agrotóxicos associados vai no pacote do bife também. Se a questão da desigualdade tem eco no seu coração, por favor, considere o veganismo!
Se dividir a terra cultivável do mundo pela quantidade de habitantes globais, cada um teria direito ao espaço azul. Os espaços verdes são os necessários para alimentar veganos e ovolactovegs. Olha o espaço necessário para o carnista. A conta não fecha, alguém vai ter que deixar de comer pra dar espaço para o bife alheio, ou o buraco na amazônia seguirá crescendo.

Por fim, saúde:
Mil vantagens. Só pense em tudo o que vc teria que deixar de comer se fosse vegano, e agora pense de novo se esses alimentos eram saudáveis. Maioria não era lá tão boa pra saúde, certo?
Gordura saturada, colesterol, problemas renais derivados do excesso de proteína animal, acidez metabólica, digestão pesada - tudo melhora, tudo o que é ruim ameniza, a vida fica bem mais leve. Pra não ficar com deficiências nutricionais, só tem que comer bem, variado, frutas e legumes em abundância, grãos e sementes também. Eu só suplemento vitamina B12.
O início da mudança alimentar é um período sim de investimento de tempo, pois temos que aprender sobre nutrição e opções legais de comida. Aqui vale a conscientização a respeito do que eu já disse antes: a gente precisa se apropriar do conhecimento essencial para a nossa saúde!
A comida normal é extremamente sem graça, tudo é só acompanhamento da carne. Então na comida vegana tudo precisa ter graça por si mesmo. Por exemplo, meu arroz nunca é só um arroz - é um arroz com algum outro grão, tipo linhaça ou quinoa ou gergelim, ervas e algum legume, como abobrinha, brócolis ou berinjela. Grão de bico, lentilhas e feijões são super proteicos, de cereais e oleaginosas se faz leite vegetal, pão de queijo sem queijo é mais gostoso que o convencional, farofa e cuscuz dá pra botar o que quiser dentro, frutas secas são ótimos lanches para levar na mochila e adoçam sobremesas sem usar açúcar, saladas viram refeições completas com bastante variedade de folhas brotos legumes ralados, uma pastinha feita do resíduo do leite vegetal e um molho, e assim vai :) Tem chocolate vegano, pão vegano, estrogonofe vegano, maionese vegana, tudo o que é versão de comida conhecida. Quem sente falta, pode achar para comprar queijo vegetal e diversos produtos parecidos com carne, estes são bem interessantes no período de transição. Eu entrei totalmente na cozinha depois de vegana, coisa que nunca tinha feito na vida. Eu me disponho TOTALMENTE a passar dicas mais detalhadas e específicas sobre receitas conforme a necessidade de quem precisar, certo? É só mandar um oi :)
A maravilhosa cozinha vegana da Fê
Com tudo isso, posso dizer que graçassss ao bom Pai eu tive acesso às informações necessárias, acordei e hoje sou vegana!! Minha diretriz alimentar é: veganismo é conduta básica, pois isso eu preciso fazer pelos animais humanos e não-humanos e pela Terra, não por mim; dentro do veganismo, eu ainda modulo minha alimentação para o meu idealismo, favorecendo os orgânicos e a agricultura familiar, e para a minha saúde, favorecendo a alimentação crua - essa parte sim, eu faço para o meu próprio bem.
Se vc chegou a ler até aqui, acho que eu atingi meu objetivo de passar informação de forma respeitosa (siiiim?). Não importa o nível da minha convicção a respeito de ser vegana, não importa o quanto já pensei a respeito para entender que a forma de ação mais acertada para todo mundo é essa: eu ajo de acordo com o meu entendimento de que é absolutamente essencial respeitar a liberdade e o tempo das pessoas, visto que essa mudança ainda é incipiente na sociedade. A mudança que não vem de dentro não se sustenta diante da maré contrária. Eu entendo e concordo com os ativistas que dizem que a nossa liberdade de opção vai só até onde começa a liberdade de outro ser, inclusive animal, e que então as pessoas não deveriam considerar comer carne uma opção pessoal pois a gente mexe com a liberdade do bicho q se mata. Mas a realidade com que lidamos é que, sim, isso é encarado como opção pessoal, a pessoa não sofre punição, preconceito ou qualquer outro revés social por consumir carne - e já que não existe nenhum freio exterior, o freio tem que vir da consciência. Um dia, eu acredito, vai haver massa crítica vegana que justifique uma mudança institucionalizada, como os abolicionistas querem, e os resistentes no consumo de produtos de origem animal terão que se adequar ou viver na clandestinidade, como já foi com a escravidão humana. A tendência de mudança é visível, mas ainda temos um grande caminho a seguir até lá. Esta é só a minha opinião, ok? Cada ativista tem direito de ter sua opinião e estratégia de alcançar e inspirar as pessoas. A minha é a informação dos dados e o respeito do tempo para que estes fatos inequívocos façam seu serviço na consciência.
Pra fechar, se vc quiser mais força ainda para sustentar sua vontade de mudança, veja Cowspiracy na Netflix, ou senão estude o resumo do documentário, no anexo abaixo. Veja os vídeos sobre veganismo na página Links, preciosos links. Forneça a si mesmo o contato com a realidade, e aí as inconveniências de ser diferente da grande massa vão ficar reduzidos a perto de nada. Instrua-se e conecte-se com a sua consciência e o seu desejo de ser uma pessoa melhor pra si mesma e para os outros, pois é esse desejo, que vem do amor e da compaixão, que vai lhe permitir ir além da média. Viver uma escolha de amor e compaixão tem um gosto muito melhor que qualquer comida :) 
Bjs


P.S.: Faço um aparte aqui - ninguém tem o monopólio da boa ação no mundo, e eu não compactuo com o extremismo que às vezes se vê no movimento vegano. Estar vivo e comer significa gerar impactos pras outras espécies. Por exemplo, quando comemos transgênicos, estamos comendo alimentos derivados de testes em animais e que causaram extermínio da fauna nativa para estabelecer monocultura. Quando consumimos plásticos e eles vão pro lixão, existe impacto pro ambiente e pros animais. Quando consumimos produtos de origem vegetal de grandes empresas irresponsáveis com o meio ambiente e que sustentam o capitalismo predatório que existe hoje, não estamos sendo responsáveis com a vida na Terra. Meu convívio com as pessoas que trabalham com permacultura me fizeram ver que nem sempre o veganismo anda de mãos dadas com a sustentabilidade, e a sustentabilidade é um caminho em prol de toda espécie viva. Tento hoje levar o melhor de tudo isso que aprendi, no veganismo e na permacultura. São ambos promotores de escolhas movidas pela compaixão. Toda mudança pro bem é válida, mas a humildade e o não julgamento das escolhas dos outros precisa existir.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Sobre ajudar ou julgar (ou: Dor de índio)

Oi queridos! :)
Tem um vídeo curtinho que eu queria mostrar pra vocês.
Mas antes disso queria conversar sobre um assunto que já me fez matutar muito e ainda segue um problema controverso e de difícil solução para a minha filosofia principiante. Aquele drama (um dos dramas) de quem vive nas cidades grandes: o que fazer quando nos pedem esmola?
Tem os que são radicalmente contra dar dinheiro, os que acham que não se dá nem comida porque a pessoa tem que ir atrás, os que só dão se for comida ou que vão junto comprar o que a pessoa precisa, os que ajudam com dinheiro.
Algumas cenas da minha experiência pretérita:
- ir fazer um lanche com alguém que pediu comida na padaria ou restaurante mais próximo, quando eu tinha o tempo pra parar um pouco no meu caminho;
- ouvir, olhar, tentar ver se fulano estava mentindo para mim e concluir por não dar dinheiro;
- achar que a pessoa tava realmente precisando e dar dinheiro;
- dar a comida que eu tivesse na mochila;
- cheia de sacolas e mochila, pedir desculpa, passar apressada dizendo que não tinha dinheiro comigo no momento, desculpa moço;
Ou seja, padrão nenhum. Às vezes minha conveniência falava mais alto, às vezes eu dava, às vezes não, baseado num critério meio obscuro de julgamento de necessidade, de disponibilidade de troco na carteira ou de lanche na mochila.
Aí faz um ano ou pouco mais, eu comecei a pensar mais na questão, pra tentar achar uma linha de conduta a seguir, pois eu sempre ficava em dilemas éticos e pensando sobre esses episódios longamente depois que a pessoa pedinte ia embora.
Essa vontade de solução veio junto de um período de muita reflexão sobre como a riqueza se distribuía; sobre a discrepância de oportunidades entre uma pessoa que nasce numa família com dinheiro e outra sem; sobre como o dinheiro se refletia na educação recebida e nas oportunidades posteriores; sobre a tão falada meritocracia e no quanto a fui desconstruindo como uma ideia injusta e incompleta.
Resultado: resolvi não julgar mais e ajudar sempre. Fizemos uns kits com bolachas, produtos de higiene e uma mensagem legal de força e esperança para deixar no carro, para evitar de dar dinheiro; e, quando eu estivesse a pé e sem poder ajudar com lanche, ou se a pessoa me contasse uma história de necessidade específica de dinheiro, para comprar medicamentos ou coisa assim, decidi que daria, sim. Entendi que eu fui tão privilegiada por ter nascido numa família com condições materiais suficientes e com bons valores que, por mais que eu tenha me esforçado pra chegar ao ponto de conseguir me sustentar, eu certamente devo a minha situação hoje também à possibilidade de estudo que meus pais me propiciaram, ao meu corpo e cognição que funcionam direito, entre tantos outros fatores alheios ao meu esforço. Resolvi que os trocados que eu der não vão me deixar pobre, e afinal eu estou buscando depender cada vez menos de dinheiro; se doo dinheiro para diversas causas, não posso fechar os olhos para a necessidade de quem se submete a me pedir. Resolvi que não importa o que a pessoa vai fazer com o dinheiro que eu der, eu não tenho o direito de julgar a necessidade dela, porque eu não conheço a sua história e só posso ter uma certeza: foi uma história infinitamente mais triste que a minha, pois até hoje não sofri de necessidades que me fizessem ter que sair pedindo. Eu, que já fui severamente viciada em açúcar e laticínios (não subestime a capacidade intoxicante da alimentação!), nunca passei pela situação de não ter dinheiro para sustentar meu vício, nunca passei pelo desespero de não poder ter meu vício atendido... se eu conheço esse desespero, e se eu não vou dar uma solução global de suporte para a superação do vício daquele indivíduo, como posso achar ruim que ele use os 2 reais que dei pra ele em mais uma pedra de crack, que naquele momento é a necessidade desesperada dele? Assim, se eu consegui justificar para mim mesma até o uso da esmola para sustentar o vício, a outra possibilidade era a pessoa estar precisando pra fins mais "louváveis", e então nesses casos eu realmente ia querer ajudar. No fim, entendi que deveria ajudar sempre e que isso era compatível com a ideia de amor que quero exercitar nessa vida.
(me contem as estratégias de vcs, por favor!)
 Esse assunto da esmola jamais viria junto com o assunto do vídeo, não fosse a seguinte conversa que vi ontem:
Nós já tinhamos ajudado essa vakinha, em prol dos índios guarani-kaiowá do MS, que se encerra agora em 27/09, e estávamos divulgando quando necessário. Eu fiquei bem assombrada com o posicionamento do rapaz que contestou a divulgação do apoio, baseado na argumentação de que índio não "contribui" para a sociedade.
Pensem que triste, ser o povo realmente nativo dessas terras, ter que ouvir que o Brasil foi descoberto em 1500 quando já era habitado, perceber seu jeito de viver ser corroído pela cultura cada vez mais doente dos descendentes da cultura europeia, ter suas terras demandadas por conta de dinheiro, seus amigos e parentes perseguidos e mortos por fazendeiros. Nesse ano eu pude entrar em contato com a cultura xamânica e finalmente ver a maravilhosa filosofia de integração com a natureza dos povos indígenas, de viver e valorizar os ciclos naturais, as ofertas da mãe-terra e a vida em comunidade. Meu coração rasga de ler o que está acontecendo no MS, rasga de ler como a proximidade com a nossa cultura abre brechas no que torna coesa a comunidade indígena. Como o Rô escreveu esses dias ao divulgar notícias da guerra civil que se instalou no MS, nenhum latifúndio do mundo vale uma vida.
O vídeo que eu queria mostrar é esse aqui. Só achei ele no facebook. É só uma militante da causa indígena falando por menos de 3 minutos, mas é bem dolorido de ouvir:
E, ainda assim, alguém lá naquele print acima julgou que não se deve estender a mão a eles. Estou também tentando não julgar essa pessoa. Juro que é difícil, quando meu coração entende tão diferentemente. Mas é exatamente aí que está o maior exercício do não julgamento, nas pessoas diametralmente opostas à nossa forma de pensar. Se eu entendo algo como certo, como o melhor caminho para todos, ainda assim não posso impor meu jeito de pensar aos outros. Posso explicitar os fatos, raciocínios e filosofia de vida que me levaram à minha escolha, e só. E, se efetivamente for esse o melhor caminho para todos, preciso confiar que, no tempo de cada um, as pessoas vão acabar mudando de ideia e o escolhendo também. No fim, é a minha conclusão de sempre: a luta por uma causa precisa estar baseada em bons sentimentos que só o exercício da espiritualidade proporciona - respeito à diferença, entrega em relação ao que não podemos modificar, amor como ótica das relações, pra não cairmos nos mesmos estados de espírito que geram as situações que tentamos combater.
Eu queria propor três coisas: a primeira, vamos tentar nos abster de tanto julgamento, já que convivemos com tanta dor e injustiça? É um super exercício para o bem, tão importante quanto é difícil.
Todas as pessoas que você encontra estão lutando uma batalha que você desconhece. Seja gentil. Sempre.
A segunda, vamos pensar com carinho a respeito das esmolas que damos ou não damos, e também nas causas que ajudamos financeiramente? Tem problemas sociais muito, muito maiores que a nossa capacidade de atuação. Nesses casos, eu mando muita energia positiva para a resolução daquela situação e, se eu tenho condições de colaborar com recursos materiais, eu ajudo. Quase toda ONG precisa de doações, então veja alguma que trabalha com uma causa que lhe atrai, e colabore! Faz bem pro coração repartir o que nos é excesso, e é mais louvável ainda repartir aquilo que nos faria alguma falta. É uma das formas de mostrar gratidão pelo que temos :)
A terceira, por fim, é uma mistura das duas primeiras: vamos combinar que, nesse campo das lutas sociais e causas a favor dos desfavorecidos, não se pode julgar e invalidar qualquer (qualquer!) esforço no bem. Toda energia empenhada no bem é válida! E vc que ajuda, não esmoreça diante das críticas! Ser a pessoa com mais consciência numa interação com outro ser significa que a responsabilidade de compreender é sua.
Resumo da ópera, como sempre, é: MAIS AMOR!
Por favor, quem sentir que essa causa é sua também, ajude os guarani-kaiowá através da vakinha, até 27/09!
E se inteire da situação acompanhando páginas no facebook como a da Mobilização Nacional Indígena, a dos Terena, de ativistas como a Denizia, a Yara
Bjs, com carinho,

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Abrir os olhos pode ser a coisa mais dolorosa que você já teve que fazer

Escrevi esse post em 2015, enquanto ainda era vegana; hoje não sou mais, como contei aqui. Deixo o post em sua forma original, sendo que o P.S. lá no fim escrevi agora, no fim de 2016.
Oi!
Hoje eu queria apresentar melhor um assunto que eu nem conhecia há um ano, e que se transformou na minha ótica de saúde e de alimentação, porque cada vez mais vejo a relação determinante entre as duas.
A primeira necessidade nesse aprendizado, como em todos os aprendizados libertadores: é essencial se desapegar do senso comum. Essencial se desapegar do "ah mas isso é vendido como saudável na propaganda da tv", essencial se abrir para o novo e estar alerta para enxergar com cautela o que a mídia, os estudos científicos, o senso comum escolar e universitário repassam de informação, pois existem motivos diversos pelos quais essa informação pode estar equivocada. É preciso aprender a desaprender para reaprender (li essa frase incrível numa camiseta-recompensa por ser sócio do Recorrente, uma iniciativa brilhante)! E principalmente exercitar o seja seu próprio laboratório no que for importante para a sua saúde. Teste! Não tenha medo, preguiça, resistência a mudar um hábito alimentar por algumas semanas e ver o que acontece :)
Digo isso porque, à medida que vamos nos apropriando das informações importantes para a nossa alimentação e saúde, à medida que deixamos de terceirizar para o rótulo no supermercado o veredito sobre o quão saudável é aquele produto, a gente vai se familiarizando com a dura realidade a respeito dos interesses escusos que muitas vezes movimentam a ciência, a mídia, a política de governo para a educação do povo, e a gente entende que precisa questionar TUDO.
Os governos, será que eles querem uma população lúcida e atuante, ou pessoas presas no ópio de todos os tóxicos e da tv, versão moderna do pão e circo? Por que será que nas escolas ninguém aprende sustentabilidade de verdade, ou como funciona o INSS e o judiciário e o processo legislativo e como estudar, como ter discernimento em relação à informação que nos chega? Nos dão informações prontas para serem acreditadas, não questionadas. Nos fazem acreditar que sempre foi assim, 10% mais ricos têm mais dinheiro que os 80% mais pobres e o que dá pra fazer é com esforço passar do lado pobre pro lado rico, porque assim sempre será. Nos fazem acreditar nisso através do panorama muito complexo: as mazelas sociais e deturpações econômicas não têm culpados facilmente identificáveis, tudo é muito maior do que nós e que a nossa capacidade de fazer diferente, aí pra não se amargurar a gente esquece de tudo isso e vai pra festa tomar todas e ficar muito louco, ou vai fazer um brigadeiro e assistir um filme com uma história de final feliz. :-(
Matrix, a analogia perfeita. E isso não é uma indireta pra alguns, porque serve ou já serviu pra TODO mundo!
Em relação à saúde, a indústria farmacêutica é isso: uma indústria, que precisa de clientes, de preferência permanentes. Promover saúde dá bem menos dinheiro que combater doença. Promover saúde com alimento barato então, vish. Se o interesse da indústria é proteger seu lucro, aquele nível de investimento que eles colocam na pesquisa, será que vai ser no sentido de encontrar formas de não ficar doente? Sabe a diferença entre o dinheiro injetado na pesquisa pelas empresas com interesse financeiro em comparação com o dinheiro disponibilizado para pesquisas isentas, por outras entidades e universidades? É uma batalha inglória. 
Algum lugar dentro de todos nós sabe que correr pra churrascada e cervejada e sobremesa açucarada, dormir pesado e acordar embotado não é o caminho, e ainda assim é o que as pessoas consideram diversão e confraternização hoje. A gente vai deixando de lado essa voz que nos diz que isso não é jeito de se viver, porque todo mundo faz, porque mudar é difícil, porque todo mundo tem que morrer um dia, porque a vida já é tão dura que a gente precisa extravasar, e assim vai.
E, mesmo assim, as informações do bem, do interesse real na saúde, estão se espalhando, na minha opinião muito porque a internet minou o monopólio da mídia tradicional. Quem tem interesse em comum, por mais contrário que seja ao interesse do grande capital, agora se encontra muito mais fácil via virtual. E assim a disseminação de saberes não fica sequestrada pelos meios oficiais, e o que interessa e funciona para as pessoas acaba criando volume, chegando a cada vez mais pessoas, até nós aqui, conversando sobre todas essas coisas agora. 
Por isso eu digo: abra-se para o novo, para o diferente! É a nossa saúde que está nesse jogo! Não precisa virar um cético pessimista desconfiado de tudo. Simplesmente ative o seu lado crítico: quem disponibilizou essa informação? A que interesse econômico esse alguém atende? Será que um dia esse alguém, ainda que bem intencionado, questionou o que aprendeu na faculdade, foi atrás de outras possibilidades ou tá fechado no quadradinho? E não seja um extremista também, aquele que pensa que, se fulano diz que tem por missão ajudar as pessoas e cobra pela consultoria alimentar, então ele só quer ganhar dinheiro e não dá pra dar crédito para o que ele tá dizendo. As pessoas precisam sobreviver e querem trabalhar com o que amam. Se amam alimentação crua, sentem no corpo os benefícios que ela traz, querem ensinar para cada vez mais pessoas e as pessoas estão atrás desse aprendizado, é justo que essa seja sua fonte de renda. Isso não invalida sua mensagem. 
A maioria das pessoas se vê na necessidade de buscar novos caminhos poque os caminhos tradicionais falharam miseravelmente, e elas estão com doenças crônicas, doenças agudas, doenças psiquiátricas. Ou pelo menos, como era o meu caso, vivem de dieta e sem energia, com problemas digestivos, problemas de pele, todos precursores daqueles primeiros mais graves. É fato que a nossa sociedade é doente hoje: a economia com o paradigma furado da necessidade de crescimento infinito, tanto avanço científico, e as pessoas vivendo pra ganhar dinheiro, descontando estresse no consumo, pagando o tarja preta na farmácia. Cadê a felicidade advinda de toda essa suposta evolução? Cadê a saúde, a graça na vida, a força interior das pessoas, os vínculos reais? Por que tantas bengalas-vícios em que a gente tem que se apoiar? 
Por tudo isso a importância de se reconhecer que do jeito que vai não dá mais, de se libertar dos preconceitos, de aceitar que aquele shake incrível com uma lista de 50 ingredientes - 80% deles químicos - pode não ser o melhor pra sua saúde mesmo te fazendo emagrecer, aceitar trocar o café-com-leite-que-eu-tomo-desde-criança-de-manhã por alguma outra coisa melhor pra saúde ainda que o paladar resista, se libertar das suas próprias amarras do hábito, se apropriar desses aprendizados, testar o que fizer sentido pra vc a partir das suas próprias pesquisas. Me parece que a escolha é 1) se dar conta de tudo isso e mudar antes da doença, ou 2) ser forçado a mudar pela doença. Eu espero, de coração, que as pessoas acordem para a primeira opção o tanto quanto possível. E o que eu posso fazer para isso é compartilhar ao máximo os saberes das pessoas que fizeram diferença pra mim, que me ajudaram nesse processo de romper minhas barreiras, e compartilhar minhas próprias experiências nesse processo. É o que eu tenho tentado fazer, com muito carinho!
Como a conversa já está muito comprida, fica por hoje só um resumo do caminho que estou buscando e no qual acredito hoje: o alimento sendo remédio, e remédio sendo alimento, na sabedoria sempre atual de Hipócrates. Alimento promotor de saúde é de origem vegetal, cru ou germinado, orgânico, não industrializado, alcalinizante, cheio de energia vital, com enzimas ativas e colaborando na digestibilidade, não demandando energia excessiva do corpo para sua metabolização. Claro que esse é um ideal que dificilmente é atingido do jeito que a vida funciona hoje, nosso país imerso em agrotóxicos, cultura do senso comum tão diferente disso, opções raras de comer na rua. Mas ideais são necessários para nortear nossas escolhas!
Tem um vídeo de 7 minutos, chegado a mim via facebook, do Dr. Leonard Coldwell, que foi meu primeiro contato com a dieta vegana crudívora como maior promotora de alcalinização e prevenção ao câncer, há exatamente um ano. Eu ainda comia carne, era muito viciada em laticínios e açúcar e refrigerante zero e sofria de todo tipo de desconforto gastrointestinal possível. Ainda tenho muito a fazer pra me melhorar, mas quando olho pra trás não acredito em como eu vivia há um ano. Hoje, vegana e mais de metade da alimentação crua ou viva, açúcar muito eventualmente, industrializados próximos de zero, frequentadora assídua de feira orgânica, nada de refri nem bebida alcoólica... a gratidão é imensa por ter encontrado os caminhos, e o esforço pra me melhorar foi incomensurável! Eu sempre me considerei uma pessoa aberta para pensar diferente, e mesmo assim implementar uma mudança não é algo automático a partir da nova informação recebida. Normalmente a gente tem um tempo de metabolização daquela informação, de reflexão sobre os nossos hábitos, de sentir o desconforto dos hábitos antigos agora sabendo que existe um caminho melhor, aí a consciência começa a doer por saber o caminho e não seguir, aí a gente vai se preparando aqui e ali pra mudança, e aí a gente muda. Tem muita energia envolvida sim. Mas investimentos de tempo e energia em saúde fazem sentido, não fazem?
"Para ser livre, tem-se de começar pela preciosa coragem de ser diferente." Professor Hermógenes
Hipócrates, considerado o pai da Medicina, um completo visionário para o seu tempo lá em 500AC, inaugurou o entendimento de que o alimento fosse o remédio das pessoas. Ele tinha uma visão global de saúde mental, emocional e física, e nesses termos elava filosofia e medicina de forma pioneira. Sua visão era tão revolucionária que sua escola não manteve a mesma linha depois de sua morte, perdeu-se da filosofia e levou esse tempo todo para que hoje se retomasse aquele conhecimento, já num outro nível de maturidade científica. Por isso se diz que a evolução não se faz em círculos, e sim em espiral - estamos de volta ao Hipócrates, mas uma volta acima da espiral - ou duas, ou três, se considerarmos os estudos de Paracelso e de Hahnemann, o pai da Homeopatia. Assim como a permacultura, a saúde pela alimentação também não é inovação, é retomada, é retorno ao que esquecemos, ao que já houve um dia e foi deixado de lado pela sociedade em favor de outros interesses.
Eu ainda pretendo falar muito sobre isso, mas quem quiser ir pesquisando, além dos links sobre alimentação crua e viva que estão na página Links, preciosos links, eu ainda acompanho o trabalho de outras pessoas na promoção de saúde através da alimentação. Vou deixar os links para as páginas deles no facebook, aí quem quiser encontra os blogs, vídeos e páginas pessoais a partir da rede, ok?
Instituto do Alimento Vivo, da Fátima Alves - ela promoveu o SEMAV - Semana da Alimentação Viva, um congresso virtual, em maio desse ano. Foi quando eu me abri de verdade pra alimentação viva e crua e através das palestras do SEMAV que eu conheci o pessoal dessa lista.
Culinária Viva, da Juliana Malhardes, muitas dicas de como integrar a alimentação viva na realidade de correria e da família que estranha a mudança, receitinhas etc.
Rede Verde, da Anne-Sophie Bertrand, a ONG tem mais info de sustentabilidade, mas tem vídeos legais no youtube dela com dicas de como ser um crudivegano sem tempo nem dinheiro e com receitas :) Ela é linda demais, dá gosto de assistir!
Saúde Frugal, do Eduardo Corassa, ele divulga a dieta higienista hipolipídica, baseada em frutas, verduras e sementes sem qualquer tipo de preparo modificador de sua estrutura química, aliado a um cuidado com as combinações de alimentos, para minimizar a demanda energética da digestão.
Comida ecológica, do Daniel Francisco de Assis, ele também fala muito sobre a mudança de pensamento de que estamos falando aqui, além da dieta crudi, e tá planejando uma ecovila vegana crudívora boa demais pra ser verdade, rsrs
Belle Verte, do Leo Caputti e da Timi, com foco em como viver sem glúten e açúcar.
Alkaline Man, ou Daniel Rocha, é uma figuraça muito diligente na divulgação da mudança alimentar e da dieta crua alcalina, o face dele é bem legal de seguir e ele tem muitos vídeos que eu acompanho. A história dele é incrível, ele era obeso e a vida dele mudou totalmente com a mudança de alimentação.
A Amarantha Ribas, médica nutróloga mais linda do mundo, minha esperança na mudança de paradigma nutricional na medicina brasileira, junto do Dr. Alberto e provavelmente mais alguns que eu desconheço (tá crescendo!).
Vou repetir o Elias Pereira, que já está na página de links, porque muito do que eu faço hoje me foi apresentado por ele nos seminários online. Ele trabalha com pessoas gravemente doentes, melhorando a qualidade de vida e colecionando histórias de cura através da dieta.
Outro achado foi a Irene Bueno, espanhola divulgadora da alimentação viva. Esse é o compilado argumentativo mais legal que já vi, do porque ser vegana e crudívora - de autoria dela, está em vários sites espanhóis. Só não achei em português, mas dá pra contar com a nossa habilidade no portunhol pra entender tudo ;-)
Exemplo de dica quente do Elias. Abre pra ver!
O interessante é que o padrão é esse pessoal compartilhar a mesma história: viviam doentes por causa dos hábitos herdados da sociedade, e presenciaram em si mesmos a mudança e a saúde, e quiseram compartilhar essa notícia com o mundo, e estão fazendo disso sua missão e meio de vida. A outra coisa em comum é a vibração incrível das pessoas que se alimentam dessa forma. A nutrição crudivegana atua também em nível energético e abre o caminho para o amor, a alegria e a paz, são pessoas integradas na natureza, atentas ao bem de todos. É impressionante, e é prova de como somos uma unidade, e de que o que se faz no físico atua no emocional, no mental, totalmente em sinergia.
Lembrando os navegantes eventualmente desconfiados que não ganho nem um centavo com divulgação, tá? Essa gente nem sabe que eu existo, haha... porque sou mais uma de milhares de pessoas passando pela mesma ruptura e descoberta através deles. É uma rede do bem incrível! E fico com uma vontadinha de passar uma temporada no Rio de Janeiro, onde o alimento vivo é presentíssimo, onde começaram o Biochip e o Terrapia, dois projetos de extensão em universidades que há décadas promovem a sua divulgação (também peguei muitas dicas com ambos, vale o acesso!). No Rio também é onde está a maior parte dos disseminadores, onde tem vários restaurantes crudívoros :)
Terrapia e alegria de estar entre pessoas que vivem realidades próximas. Também querooo kkkk
Então era isso por enquanto sobre alimentação! Se tiver dúvidas do porquê escolher o crudiveganismo, eu sugiro o link da Irene acima. Não importa o caminho alimentar que vc resolva seguir, já que existem diversas vertentes e teorias sobre o que é benéfico para a saúde; importa é que seja uma escolha consciente, que se busque o conhecimento e que se decida, em vez de só ir com a galera, sem nunca questionar. Dói ter que mudar, mas depois da mudança, a gente olha pra trás e dá graças... fica tão feliz de não ter se entregue à apatia, tão feliz de estar vivendo tudo o que a vida pode ser de boa, de forma real e consciente :)
Bjs com carinho,

P.S.: Depois de muitos testes, vi que pra mim o alimento germinado e o excesso de fibras é bem indigesto, me causa um super inchaço, descobri que algumas pessoas tem essa dificuldade - nesses casos, o suco verde coado é muito bom, assim como vegetais e frutas menos fibrosos. Hoje sou ovolactovegetariana e tento equilibrar a alimentação crua com todo o mais de forma a me sentir bem da digestão, e compartilhando sem sofrência os momentos de confraternização que envolvem alimentos com as pessoas que amo. Tá muito bem assim :)