terça-feira, 15 de novembro de 2016

O cará e o olhar sobre a natureza

Oi queridos!
Pensei em escrever esse post depois de um findi aprendendo muito sobre sistemas agroflorestais com nossos amigos queridos da ONG DATERRA, em Estância Velha/RS.
Ainda naquela vibe maravilhosa, de pessoas buscando as mesmas coisas, trocando ideias, sonhos e dicas práticas, tava eu em casa fazendo coisinhas pela cozinha e passo os olhos pela fruteira - e o cará-do-ar que eu tinha trazido da feira orgânica tinha brotado!
Olhem a lindezinha, já devidamente deslocada pra janela pra seguir crescendo!
Aquela cena singela me deu uma ternura enorme. Lembrei de uma outra cena de um ano e meio atrás, quando fiz um curso de horta urbana com a minha amiga amada Milena - ela tinha uma bucha vegetal seca na mão, chacoalhou um pouco e caíam muitas sementes de dentro das fibras, enquanto ela dizia: "olhem como a mãe terra é generosa, eu dei terra e água para uma sementinha só, e agora quantas sementes ela me dá de volta!"
Muitas vezes eu me remeto a essa linda reflexão da Mi, quando vejo a abundância e generosidade manifesta nas nossas plantinhas, que cultivamos aqui na cidade mesmo, ou que o pai cultiva no quadradão dele na praia. Mesmo com a nossa dificuldade de logística atual, ficamos admirados de ver o quanto alguns cultivos dão certo, o quanto são resistentes, o quanto têm inteligência de vida embutida, o quanto dão generosamente.
O quadradão do pai na praia :-D
Essa contextualização é pra falar da mudança de ótica que fez toda a diferença na minha vida. Eu sempre tive contato com ambientes rurais, inicialmente lá na região da fronteira com o Uruguai, na fazenda do meu avô, depois no sítio do pai nos últimos 20 anos, e nesse meio tempo na faculdade de biologia que fiz. Aí, no ano passado, na minha grande revolução pessoal (logo conto como foi), quando descobri a grande mãe que vive na Terra, eu me perguntei: como eu nunca tinha te descoberto antes, Pachamama, mesmo com tanto mato ao longo da minha vida?
Depois fui entendendo - a minha herança familiar é aquela da cultura fronteiriça, o homem forte do campo que resiste à intempérie do clima, laça o gado, olha os campos de cima do seu cavalo, carneia e vive do churrasco. Ouvi muito meu pai contando as histórias de quando os italianos chegaram na fronteira e começaram a plantar arroz numa terra de criação de gado e ovelha - que os gaúchos estranharam, não se prestavam a uma atividade que exigia que se curvassem, como a agricultura. Interessante, né? Fui percebendo o quão patriarcal e dominadora era a relação com a natureza naquela cultura, e assim entendi por que ela nunca tinha me chamado a atenção ao me ser apresentada daquela forma. Nesse ano, 2016, eu fui novamente à Expointer, depois de acho que uns 15 anos da minha última ida. Estava há tempos querendo ir lá pra lembrar dos anos em que o meu avô competia com ovelhinhas de raça - eu era criança e achava o máximo aquela semana, ver os bichos, as competições, o convívio com os primos. Fomos, eu e o Rô. Primeiro nos encantamos e ficamos conversando longamente nos quisques da Emater, muitas pessoas legais e informações sobre agroecologia, saímos de lá cheios de mudinhas de chás e de PANCs. E a parte dos animais, que tanto fazia parte de uma lembrança de infância divertida, foi muito, muito triste de ver. O semblante dos animais, presos em meio metro de corda uns do lado dos outros, os cartazes de "remédio xyz para aumentar sua produção", "melhoramento genético pra dar cria mais rápido", o jeito que os peões lidavam com os bichos, tudo reforçou em mim aquela sensação de que a relação com a natureza que existe nesses meios mais tradicionais é uma de subjugação, de usufruto sem maiores significações.
(aparte necessário: claro que esse entendimento é de uma cultura dominante, tenho certeza de que muitas pessoas que vieram dessas mesmas formações culturais que eu têm uma relação mais respeitosa, integrativa e amorosa com a natureza. Como o meu pai, que sempre amou fazer horta e a arte de se curvar na terra...)
Cursando biologia, era outra a sensação - a de um distanciamento sem emoção, de enquadramento dos processos naturais em sistemáticas racionais humanas. Se algo existe, é passível de ser categorizado e descrito por nós. Nunca, nas aulas de ecologia na facul, ouvi um relato amoroso em relação à harmonia e à beleza do funcionamento dos ciclos da natureza; fico imaginando que não deve ser pq nenhum professor assim sentisse, mas pq existe aquela necessidade de ostentar objetividade no ambiente laico da universidade, não é lugar de falar de amor pela natureza, ora bolas.
Corta para início do ano passado: eu comecei a pós-graduação em saúde e espiritualidade e na primeira aula ouvi falar de reiki. Fiquei em encantada e fui atrás de um curso pra fazer, e uma colega muito querida nossa nos falou do grupo de reiki xamânico em que ela tinha feito a formação. Eu fiquei encucada com o tal do xamânico, imaginando o que seria e se era o mesmo reiki de que tinha ouvido falar na aula. Lá fomos nós pro fim de semana do curso e se abriu um mundo: o mundo da mãe divina, o princípio feminino manifesto na matéria na forma da capacidade de geração, expressa na semente como no nosso útero; o acolhimento, o alimento, a generosidade e a abundância como atributos dessa energia tão maravilhosa que permeia toda a natureza e que faz parte de todos nós. A energia do ki, do chi, do prana, esse princípio energético que permeia o cosmos, é tão melhor gerenciado por nós quando contrabalançado pelo ancoramento firme na energia introspectiva e amorosa da Terra. É o equilíbrio perfeito entre o princípio feminimo e masculino que existe em todos nós.
A partir disso, eu comecei a ver o sagrado e o divino na natureza, e o princípio feminino foi se desvendando em analogias infinitas - a água, tão sábia ao contornar obstáculos e emanar fluidez; as coexistências equilibradas entre as espécies. Eu e o Rô comentamos que a gente só vê fora o que tem dentro - e parece que por isso que os documentários sobre a natureza adoram abordar os episódios de caça e predação, as estratégias de sobrevivência. Faz parecer que a "natureza selvagem" é sempre bruta e inóspita, quando na verdade ela é muito mais pacífica e colaborativa que isso. A energia masculina tá manifesta sim, nos comportamentos mais ativos, de movimento, de alimentação, de defesa; mas se não for pra comer, não se mata. Existe uma frugalidade de hábito nos instintos, uma calma, um senso de equilíbrio. Isso já mostra o quanto nos dissociamos da nossa natureza primeira, tão difícil que é sermos frugais nos nossos hábitos e equilibrados...
Eu sinto muito que o retorno a um convívio mais próximo à natureza, que muitas pessoas têm buscado - e muitas pessoas jovens, inclusive -, tem a ver com essa mudança de ótica. Como se a gente olhasse pra nossa vida de sociedade pós-moderna nas cidades enormes e visse muita loucura, e olhasse pra natureza e percebesse lucidez, e a lucidez nos atraísse. Quando a percepção da lucidez da natureza vem acompanhada da imagem da amada mãe divina em cada milagre de nascimento e germinação, a atração é irresistível.
Já falei aqui sobre essa questão dos princípios feminino e masculino, ambas energias que temos em nós e que são necessárias para o nosso desenvolvimento e plena manifestação. O nosso momento atual de sociedade é resultado de muito tempo de domínio da energia masculina no mundo, e nesse processo a energia masculina saudável foi se distorcendo - e se criou o homem não chora, o não levo desaforo pra casa, o chefe de família, a dominação do mais forte, a competição, a subjugação. Olhem essa explicação do Prem Baba a respeito: "As distorções dos princípios vitais feminino e masculino, que se manifestam como agressividade e submissão, nascem da necessidade de retirar energia do outro. Energia significa amor – essa é a energia que alimenta o universo. O desamor é o que gera as distorções. Assim, a entidade humana, movida pelo desamor, passa a vida tentando conquistar o amor, mas tudo o que ela consegue é gerar mais desamor. O submisso gera mais ódio no agressivo porque ativa nele a violência do masculino distorcido; e o agressivo ativa ainda mais a submissão do feminino distorcido. Esse é o núcleo da guerra neste planeta.”
É essencial que nos demos conta disso, que nós, mulheres, não queiramos manifestar a mesma energia masculina distorcida pra nos igualarmos aos homens, mas sim que estejamos conscientes de manifestar os dois princípios de forma equilibrada, que encontremos a força do nosso feminino e a energia do masculino saudável dentro de nós; é essencial que os homens deixem fluir sua energia feminina sem medo de serem julgados por isso, que equilibrem e sanem o princípio masculino em si. Espelhar a natureza ajuda muito nesses processos de cura interior.
Percebi na minha vida desde muito cedo a presença do "pai": a energia cósmica que dá movimento e ordem ao Universo, ou Deus, como quiser chamar, que na cultura ocidental é bem masculinizada; na minha criação familiar, a energia mais impositiva também foi dominante. Foi muita, muita cura pra mim encontrar na natureza a aceitação, a generosidade, a intuitividade, o amor abnegado da "mãe". É um vácuo emocional não ter um referencial de energia feminina na vida. Lembro do Yogananda falando muito da mãe divina, e percebo o quanto a tradição indiana antiga tinha tanto deidades masculinas quanto femininas, para ilustrar todas as facetas da energia divina, as predominantemente "pai", ou energia masculina, e as predominantemente "mãe", energia feminina. O yin e o yang. No xamanismo, o grande espírito nos conectando com o alto, a grande mãe nos conectando com a terra. Sempre em equilíbrio.
E na Cabala também!
Minha ideia com toda essa história era tentar mostrar pra vcs o que eu senti quando vi o cará brotando. Lindo, cheio de vida. Amor manifesto no ser alimento e saber gerar muito mais alimento a partir de si mesmo, no receber luz e saber transmutá-la em energia. O reino vegetal é uma coisa fantástica. Que a gente sempre tenha gratidão ao tirar do galho as folhinhas que vão virar nossa salada, tirar do pé os frutos que nos dão seu sumo. Essa gratidão é um estado de presença, um reconhecimento do sagrado em todos os seres. É muito mais fácil de entrar nesse estado quando colho meus alimentos direto do pé. Vai ficando mais difícil à medida que a nossa fonte deixa de ser o pé e se torna a feira, onde pelo menos a gente sabe que tá tudo bem fresquinho; mais difícil ainda na quitanda ou no hortifruti do mercado; praticamente impossível nas comidas em caixinhas, tão dissociadas que já são das fontes naturais que as geraram.
de onde vem?
Que a natureza seja cada vez mais poesia e conexão com o sagrado dentro de mim. É isso o que o amor faz, transforma tudo em cor e verso, e quem quiser ouvir os versos que a natureza inspira, eu convido a ouvir o Lucas Santos cantando, e a partir dele tantos outros que o youtube for dando a dica, porque são muitas as vozes cantando esse amor. Convido também a ler sobre o xamanismo, meu canal de conexão com a sabedoria ancestral dos povos da nossa terra. Longa vida aos trabalhos de amor que despertam as pessoas para a natureza!
E o cará, hoje, tá bem feliz empoleirado numa cerca de um terreno num centro de cidade de região metropolitana, que é o nosso laboratório de plantio, hehe. Cada dia mais lindão :-D
Bjs

2 comentários:

  1. "A que nos referimos exatamente com esta “mentalidade patriarcal”?

    A uma paixão pela autoridade. Pelo ego, o ego patrístico, um complexo de violência, excesso, voracidade, consciência isolada e egoísta, insensibilidade e perda de contato com uma identidade mais profunda. Há quem acredite que tudo isto faz parte da natureza humana e que sempre foi assim. Pois não é verdade. Há indícios da existência de um passado matrístico, e ainda hoje há algumas sociedades indígenas com estas características, que não funcionam em absoluto alinhadas às diretrizes e valores que conhecemos na civilização. Esta mente, longe de ser inerentemente humana, em realidade começou a gestar-se há apenas por volta de 6000 anos atrás quando, frente a uma crise de sobrevivência, certas populações agrícolas arcaicas indo-européias e semitas tiveram que voltar a serem nômades e acabaram convertendo-se em comunidades de guerreiros depredadores.

    E como se manifesta esta mente patriarcal?

    Nas relações de domínio-submissão e de paternalismo-dependência, que interferem na capacidade de estabelecer vínculos adultos solidários e fraternais. O cérebro patriarcal-racional apela à competição, enquanto que o feminino apela à cooperação. Esta dependência e obediência compulsivas (aos governos e ao poder em geral) não só alienam os indivíduos, como também constituem distorções, falsificações e caricaturas do amor."
    em https://transformativa.wordpress.com/2015/08/13/o-mal-da-civilizacao-e-a-mente-patriarcal-claudio-naranjo/

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  2. Fê, simplesmente lindo o seu amor pela natureza manifestado nesse texto. O melhor de tudo é que você, com suas palavras e atitudes, consegue fazer esse amor ser contagiante. Bj de coração. Jé

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