quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Tudo converge para a desescolarização

Oi, queridos!
Faz algum tempo que esse assunto tá na pauta pra entrar no blog: desescolarização (ou unschooling, como muitas vezes é mantido em inglês). 
Foi mais uma das coisas que caíram no meu colo (via facebook, dessa vez), pra que eu desse atenção, ao longo do ano que passou, mais especificamente em setembro de 2015 - apareceu um link pra história do Biel Baum, que eu achei incrível - afinal quase todo menino de 8 anos diz pra mãe em algum momento que não quer mais ir pra escola, mas geralmente eles não fazem isso com um pedido bem fundamentado nem as mães dão atenção ao pedido (essa dinâmica já é um indicativo de que algo tem de errado na coisa toda)! Em resumo, o Biel sentia que a escola não o ajudava a seguir o caminho da vocação que ele sentia, e pediu pra deixar de ir na escola pra seguir se aperfeiçoando como cozinheiro, que é o que ele gosta de fazer e faz bem. E foi assim, programas de culinária e vários projetos depois, agora com 13 anos o Biel tá fazendo um curso superior de gastronomia e trabalha num restaurante no México, sempre idealista e engajado em melhorar o mundo pelo seu viés da alimentação saudável.
Ele já falou em duas palestras do TEDx: uma quando ele tinha 10 anos (fofo demais encarando a plateia e a responsa), contando a história dele com a cozinha e a missão de ajudar crianças a comerem melhor, e outro aos 13, contando sobre o caminho não convencional de educação e de vida dele e questionando o fazer tudo igual e a educação tradicional, que trabalha pra nos colocar nesse caminho de fazer tudo igual.
Depois de ver os dois TED e ler muito do que a mãe do Biel escreveu no facebook contando a jornada da família, a história e projetos dele, as formas diferentes de viver além daquela receita clássica escola-faculdade-trabalho-aposentadoria, a vida de família nômade que eles levavam, a desescolarização, parecia que um mundo novo tinha se aberto pra mim, hehe. Ela toca o projeto Escola com Asas, que busca promover iniciativas de educação cooperativa e empreendedorismo social. Transformador conhecer essa história, descobrir que tem muitas pessoas especialíssimas que incorporam o viver fora do sistema, que é algo que tem eco profundo no coração de quem não se encaixa, e ver que vivem esse ideal e missão de forma viável (para perplexidade dos militantes da segurança a custo de felicidade).
Hoje, o que a escola e a faculdade fazem além de gerar boa mão-de-obra para o sistema? O que torna uma carreira desejável? "Promissora" significa "tem mercado, vc não ficará desempregado". "Carreira segura" significa que vai dar um bom dinheiro e status. Quantas vezes alguém levou um balde de água fria na sua vocação com variações da frase "isso não dá dinheiro"? Quem se preocupa com realização pessoal e melhorar o todo, quando questiona o que vc vai ser quando crescer?
Pra que serve mesmo tudo isso? Que inversão de valores é essa que nos faz não aprender na escola o básico da existência? Quantas vezes precisamos na vida do trabalho de um advogado e quantas vezes precisamos do trabalho de um agricultor? Que dissociação doida da realidade é essa que faz as crianças não saberem que os legumes vem de plantas e o que acontece quando se dá descarga no vaso sanitário? Que sociedade é essa em que as crianças saem do colégio sem educação ambiental, educação emocional, educação sobre funcionamento da vida em comunidade, entre tantas coisas necessárias que deixamos de aprender na escola, pra em lugar disso saber quantas patas tem um artrópode e detalhes da cadeia respiratória celular? Além de muito gasto inútil de tempo, um criadouro de criaturinhas que vão se sentir inadequadas, por talvez não terem tão desenvolvido aquele tipo de inteligência que favorece a responder provas. 
Esse vídeo é a melhor síntese desses questionamentos que já vi. Nove minutos pra enxergar o tal sistema a que a educação tradicional serve.
Mas continuando a história de como me apaixonei pela desescolarização: na mesma semana que descobri o Biel, no ritmo daquelas sincronicidades da vida que nos indicam "SIM, O CAMINHO É POR AÍ MESMO!", me apareceu no facebook um link para um financiamento coletivo da Ayni, uma cidade-escola que está sendo construída em Guaporé/RS, com o ideal de ser um espaço de educação fora dos padrões institucionalizados atuais. Se eu tivesse visto o link uma semana antes, teria passado reto. Mas não, eu estava numa imersão total no negócio, lendo loucamente a respeito desde que o Biel e a Sabrina, mãe dele, entraram na minha história. (Gratidão, gratidão)
Então assim conheci a Ayni, e conhecer a história do Thiago, idealizador do projeto, faz parte do pacote - pra mim, a história chegou através dessa palestra aqui, que ele deu em Curitiba (se dêem o presente de assistir, por favor!). Desde então eu acompanho com muito amor o andamento do sonho se tornando realidade - o Rodrigo já foi, e loguinho eu também vou pra lá fazer um curso de desenho de permacultura, facilitado pela Ná Lu'um, instituto de permacultura engajado em inspirar transformações interiores que se reflitam nos ambientes externos também (já que qualquer transformação começa por dentro!).
O Thiago diz que a Ayni vai existir para que um dia não precise mais existir. O ideal é que um dia os espaços "formais" de resgate de aprendizado pra vida não sejam mais necessários, que o desenvolvimento humano ocorra de forma orgânica, que as trocas sejam horizontais e que se viva com tanto propósito que o estímulo à vocação nas crianças seja algo natural, assim como é o aprendizado, quando ela tem interesse pelo que está descobrindo.
Porque sim, existe algo mágico na curiosidade e criatividade da criança: o interesse faz o aprendizado acontecer. Assistindo a essa entrevista da Ana Thomaz, em que ela conta da sua experiência numa pequena escola da comunidade em que foi morar com a família, entendi que o aprendizado não depende de provas, não depende de aulas expositivas exaustivas, de hierarquia, de um ambiente estéril e sem estímulos "pra não distrair" - ao contrário, tudo isso é contraproducente para a maioria. O aprendizado acontece naturalmente num ambiente que estimule a curiosidade, nas situações em que, como na vida real, os mais e menos experientes interajam (em vez de serem separados e classificados por idade e estágio do que já foi decorado) e o que um sabe mais é ensinado para o que ainda não sabe tanto. Já ouvi muitas histórias, nesse contato com a desescolarização, de crianças que aprenderam a ler "sozinhas", em contato com outras de mais idade que já sabiam, por exemplo. Isso tudo, claro, inserido num ambiente amoroso com espírito de cooperação, em vez da tão martelada competição de hoje em dia, fruto da ideia generalizadamente implantada de medo da escassez.
Foi-se o tempo do EU - vem o tempo do NÓS <3
Pra acabar a maratona de vídeos do post, um dos melhores TEDx que já vi, com um menino que saiu da escola e fala com propriedade incrível sobre educação para ser feliz e saudável e a importância do estímulo à criatividade em oposição às tentativas de colocar todo mundo dentro das caixinhas do sistema (é realmente imperdível!).
Assim vamos, questionando, desconstruindo, relembrando... é incrível o quanto essas "inovações" são na verdade retomada de costumes antigos, como é a bioconstrução, o cultivo orgânico, a sabedoria tradicional... me faz pensar no quanto a evolução ocorre em espiral - voltamos à origem, mas um nível acima, com outra consciência e compreensão do que deu e não deu certo.
Com carinho e esperança infinita :)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Abraçando minha humanidade

Oi :)
Hoje eu acordei amando muito minha humanidade. E achei que era um bom momento de escrever aqui no blog sobre isso!
Fiquei um bom tempo sem postar, aí hoje, ao acordar tão apaziguada comigo mesma, com minhas dificuldades, minhas dúvidas, com minhas buscas e mudanças, sentindo tanta autoaceitação, me dei conta de que provavelmente foi a primeira vez nessa jornada de tomada de consciência em que isso aconteceu naturalmente e não como um pensamento forçado, como algo vindo do racional tentando ser introjetado no emocional. Que alegria sentir assim sem esforço!
Agora que PASSOU, acho até difícil revisitar o tanto de conflito que senti na época do meu último post. Uma crise completa de validação das mudanças de hábito a que eu estava me propondo.
Eu fiquei umas duas semanas naquele estado de observação dos meus sentimentos, tomando consciência do que estava acontecendo, tentando definir exatamente o que eu tava sentindo, e sem saber o que fazer pra mudar aqueles sentimentos densos. Foi difícil reconhecer e aceitar o motivo: após tantas mudanças práticas derivadas de ampliação de consciência, eu me dei conta de que não estava nada feliz com meu dia-a-dia. 
Sentimento de vida pesada e difícil de se viver, de insatisfação constante comigo e com o mundo, de dissociação completa das pessoas, mesmo as muito amadas - das quais eu recebia com frequência incompreensão e crítica, ainda que em tentativa amigável e amorosa de me trazer de volta pra normalidade. Eu acabei me vendo tão agoniada por ter que dizer não para as comidas que me ofereciam, ter que me explicar, aguentar as reações das pessoas, que fui perdendo a vontade de estar presente nas confraternizações, até as festinhas rápidas no trabalho viraram um suplício, eu só tinha vontade que não lembrassem de me chamar pra ir. Mas tb me sentia mal por não ir, porque é claro que eu gosto de confraternizar, ora bolas!
E uma das maiores solidões era me sentir diferente e não fazendo parte mesmo no meio das pessoas que eu admiro, que buscam ideais próximos aos meus. Vem forte a lembrança de um almoço na ONG de permacultura que eu amo muito, em que todos comeram lasanha de brócolis felizes e eu levei lentilha germinada. E tava frio pra caramba. Eu comendo a lentilha e olhando o vapor subindo da lasanha, pensando que uma comida quente iria muito bem, mas reforçando a lembrança de que a lentilha era melhor pra minha saúde, e sentindo o frio emocional de me achar diferente de todos quando a minha vontade real bem escondida era ser totalmente parte, mesmo ciente do glúten, e do cozimento, e do queijo. Doeu sentir essa dissociação justo naquele meio, que era cheio de pessoas amorosas e conscientes buscando uma relação melhor com o nosso meio, bem o que busco pra mim tb!
E não só, uma parte muito humana de mim também queria o direito de numa confraternização comer alguma coisa gostosa, mas, claro, ou eu levava a minha própria comida (e tinha que gastar tempo antes preparando, embalando, levando, e ressaltava a diferença entre mim e os outros) ou não levava e não comia o que tinha, passava a água enquanto todos se deliciavam, e além do bombardeio de perguntas e comentários sobre o meu não comer, ficava privada de a confraternização ser um momento divertido e leve e de comer algo especial (parece aqueles lugares cheios de doces lindos em que a única opção vegana é uma salada de fruta desmanchando de velha, ou restaurante que a única opção vegetariana é só feijão arroz e alface, que dá um sentimento de punição por vc seguir uma conduta alimentar diferente). Quanto recalque eu tava engolindo, né?
E vi que, enquanto ainda inconsciente de tudo isso, eu me protegia desses revezes e embates me reforçando cada vez mais nos meus ideais, no mundo que eu queria ajudar a construir. Comecei a ficar cada vez mais cuidadosa com a minha geração de lixo, com os meus produtos de limpeza e higiene, com a origem da minha comida, pra que nada tivesse tóxicos, pra evitar ao máximo criar dano pro planeta e pra saúde. Fui lendo e estudando cada vez mais sobre esses assuntos. Isso foi me dando cada vez mais trabalho, eu fui me impondo uma rotina espartana pelo bem comum e pela minha saúde, que me ocupava muiiiiito tempo. Praticamente todo o meu tempo. Vivia com a lista de tarefas cheia e com a sensação de sempre ter muito pra fazer, muito pra aprender e mudar nos meus hábitos para ter a coerência que eu tava buscando... não me dava tempo pra descanso nem pra exercitar a espiritualidade nem pra amar, falar de amor, ler poesia, essas coisas que alimentam a alma de beleza.
Então, além de não confraternizar mais, não comer fora, não encontrar pessoas, eu passava todo o meu tempo livre estudando, fazendo meus produtos, indo atrás das matérias primas e das feiras orgânicas (nenhuma perto da minha casa), preparando meus alimentos, organizando meus potinhos quando tinha que comer fora de casa, devolvendo potes e sacos aos locais onde eles seriam utilizados de novo, e vendo formas de eu também reutilizar, substituindo meus plásticos por vidros, uma trabalheira sem fim. Fiquei tão cricri que se eu esquecia minha caneca, me recusava a tomar caldo de cana na feira, que eu adoro, só pra não gerar mais um copo plástico descartado. Resultado: mais recalque. Tão "correta" nos meus hábitos, às custas do meu descanso, do meu lazer, da graça dos momentos de confraternização, vivendo o "sacrifício que valia a pena", eu não conseguia não esperar dos outros que acordassem e se esforçassem também, e fui perdendo total a identidade com a humanidade. Eu lá me debatendo com a vontade de tomar o caldo de cana e com a culpa de gerar um copo descartado, olho pro lado e tem uma baita lixeira com centenas de copos de pessoas que tomaram o caldo de cana bem felizes. Nesses momentos eu percebia o quanto aquele sacrifício todo que eu fazia era inútil se uma quantidade maior de pessoas não acordasse também. Em vez de eu aceitar o passo de cada um, isso foi me deixando num estado horrível de julgamento. Só via o ruim do mundo, o quanto o nosso hábito de vida estava imerso em engano e auto-engano, interesses escusos e má-fé do poder econômico, intoxicação de todos os tipos, acomodação das pessoas diante das evidências, com uma agudeza que parece que só emerge quando nos dissociamos por completo daqueles processos; fui perdendo a empatia e a conexão com as pessoas, me peguei pensando: claro que sofrem, fazem tudo errado e quando ouvem falar de algo diferente, que pode gerar mais saúde e um karma mais positivo pra vida, não dão bola, porque é difícil, porque é menos cômodo...
Fui perdendo a capacidade de ver beleza e sentir aquele amor universal transbordante que eu amo sentir, não tava mais sentindo a manifestação divina perfeita na vida. Sério. Durante a crise, tive momentos de pensar, não acredito que só mudar alguns hábitos possa ter interferido tanto na minha sensação de pertencimento, afinal é só comida e lixo, puxa vida, não é o centro do universo! Ouvindo de fora pode parecer a maior piração, mas é impressionante vivenciar o que pode acontecer quando a gente se propõe a romper com o comportamento padrão e segue vivendo em sociedade.
Quando eu consegui enxergar mais claro tudo isso, vi que tinha que mudar. Entendi que, se for um fardo pesado demais, não tá na hora, ou não é o caminho. Caminhos do coração sorriem para nós, mesmo que sejam de disciplina.
Diante da crise toda e da sensação de infelicidade, resolvi testar voltar a comer ovolactovegetariano nas confraternizações e não me estressar tanto com a geração de lixo e os produtos que uso, comprar produtos sustentáveis em vez de fazer todos. Essa decisão foi tb bem sofrida, eu senti que estava traindo o que acreditava, que estava me acomodando, me conformando ao errado, enfim... fiquei exercitando o chicotinho nas minhas costas hehe, me cobrando por tentar deixar de lado o ideal da perfeição. Mesmo com essa autocobrança e sensação de culpa, eu aceitei flexibilizar, pq tava muito infeliz na minha bolha de coerência.
E deu certo :) Hoje eu vejo bem claro que eu precisava sair daquele estado de coerência militar pra conseguir escapar da ótica de julgamento e deixar o amor entrar, pra voltar a ver beleza e a me identificar com as pessoas. Eu estava excessivamente focada na matéria, em como me portar exteriormente, a ponto de não me sobrar tempo pra cultivar as coisas que alimentam o espírito. Imagine se tudo o que eu conseguisse ver das pessoas lindas que estão no meu caminho fosse o lixo gerado, o consumo de laticínio/açúcar/comida cozida? Como eu ia me perceber recebendo tantas dádivas se meu olho seguisse focando só a crítica à nossa sociedade, quando ainda vivemos uma transição na forma de nos relacionar com a Terra e com o alimento?
Precisei frear minha sede de mudança exterior para sentir de novo que sim, essa é a minha humanidade, é meu também o karma coletivo que acumulamos nessa sociedade, não faz o menor sentido eu me sentir isenta ou alheia à nossa coletividade por ter feito há algum tempo algumas mudanças de hábitos, por me esforçar pra fazer diferente. Eu só consegui enxergar tudo isso de novo depois que me permiti participar dos momentos de lazer com as pessoas que amo, rir com elas, comer com elas o que tivesse de opção ovolacto na festinha (pq ovolacto sempre tem!), e isso me desligou a chavinha do julgamento como eu não estava conseguindo fazer enquanto eu era a única só tomando água na mesa, esforçada por um mundo melhor, aguentando as perguntas do pq eu não tava comendo, enquanto todo mundo confraternizava com o bolo de aniversário. Ao aceitar minhas dificuldades, aceito as dos outros tão mais fácil! Sim, ainda sou assim em relação à alimentação e sustentabilidade... paciência! No trabalho já é bem mais fácil trabalhar bastante sem me importar se os colegas estão trabalhando mais ou menos. Cada um deve ter mais facilidade/dificuldade em alguma área, né? Estou me aceitando! Se eu quiser tomar um caldo de cana e não estiver com caneca na bolsa, posso tomar mesmo assim, posso consumir um copo plástico eventualmente, não mereço ser tão rígida comigo mesma. Quando, durante a crise, fui contar para uma terapeuta que eu sentia culpa por não conseguir ser 100% não geradora de resíduo, 100% crudívora, só faltou ela rir da minha cara - "peraí, deixa eu entender: tu não fuma, não bebe, não usa drogas, não come carnes, e tá em crise por causa dos teus maus hábitos? Sério mesmo?" Na hora fiquei bem surpresa, sentindo que ela tava fazendo pouco caso do conflito que eu tava vivendo, mas depois me dei conta que era bem isso que eu precisava sentir tb, parar de querer perfeição e viver com mais leveza o que eu já tinha alcançado, sempre com o espírito e a consciência de seguir melhorando, mas sem autocobrança excessiva.
Durante o período mais espartano de alimentação viva, eu consegui me isolar da minha maior fragilidade, que é o vício alimentar em laticínios e açúcar, mas a que custo? Me isolando também do convívio - me separando de tudo o que há de ruim, mas tb do q há de bom. Pq sim, as pessoas comem pizza mas tb amam, se esforçam por serem melhores, buscam ser corretas e caridosas, cantam e dançam, amam a vida. Eu senti muita falta de poder compartilhar as coisas boas sem que as coisas ruins me tirassem toda a graça de viver os momentos de estar junto. Voltando a me permitir comer ovolactoveg nas confraternizações, de novo eu tenho que lidar com ter a opção de comer meus vícios no meu dia-a-dia, e eu sinto que viver essa minha fragilidade me liga ao todo, me faz sentir parte dessa humanidade que se esforça sim mas que não é perfeita, que tenta, que erra, que tenta de novo. Estou sentindo de novo, em vez de só racionalizar, que tá tudo perfeito, tá tudo no lugar em que tem q estar, voltei a naturalmente confiar e entregar que vai dar tudo certo, que a espiritualidade tá se encarregando dos processos, que a crise em todos os aspectos que estamos vivendo é parte da depuração e que o nosso destino é a perfeição. NOSSO destino. Quero ir de mãos dadas com meus irmãos que compartilham a Terrinha comigo, focando no que nos une em amor, e não nas nossas ainda falhas - inclusive, a nossa imperfeição é algo que nos aproxima hehe, ninguém é nem perto de perfeito nesse plano :)
Antes de sentir mais firmeza na escolha de flexibilizar hábitos, várias coisas ficaram lutando dentro de mim - como seria mudar de ideia publicamente, não poder mais me chamar de vegana, e como reagiriam à notícia as pessoas veganas que conheci nesse ano (muitas, muito amadas, que conheci pela internet e com as quais tenho praticamente só contato virtual). Aí me dei conta de que não deveria me ater a isso... minha prestação de contas é com minha consciência e eu sigo fazendo o que posso pela minha saúde, pelos animais, pelo planeta, do jeito que posso pra também ser feliz, dentro das minhas circunstâncias. Por exemplo, ter o círculo profissional e pessoal com pessoal simpatizantes do veganismo é uma circunstância facilitadora; e essa não é a minha realidade. E é muito, muito cara para mim a troca real com as pessoas... e a conexão é necessária para que a troca aconteça. No meu dia-a-dia, eu só convivo com pessoas tão absolutamente convencionais em seus hábitos, que têm no ovolactovegetarianismo o limite da mudança de hábito compreensível... antes eu devia parecer tão ET com meus potinhos ou só na água que eu sentia muitas vezes um bloqueio também na conversa, como se a pessoa me ouvisse já pelo filtro do "tudo isso é muito radical". Sinto que me tornei mais acessível a essas pessoas sendo ovolactovegetariana, que consigo me conectar melhor com elas agora, que bons frutos têm surgido dessa conexão. Não tem preço ver alguém repensar seus hábitos através do nosso exemplo. Então aceito, entrego, confio, perdôo, para conseguir amar um pouquinho melhor. E sei que sou muito menos danosa pro planeta, pros animais, pra minha saúde do que era quando parei com a carne e tinha um consumo bem frequente de ovo e lácteos, já que hoje o consumo é eventual, nas circunstâncias de grupo e de ambiente.
Acho que a maior lição dessa jornada foi a importância de largar o chicotinho, rsrs... parar de esperar nada menos que a perfeição na minha conduta, aceitar que o mundo e eu não somos perfeitos e que tá tudo certo mesmo assim, deixar as minhas mudanças emergirem de dentro em vez de impô-las de fora, aceitar minhas dificuldades e meu passo evolutivo. O pefeccionismo tava me fazendo sentir cheia de autorreprovações. Sigo com os mesmos ideais, mas aprendi a ser mais flexível comigo e com as situações.
Esse mês aconteceu uma coisa bem linda pra mim. Fui pela primeira vez na sede de Porto Alegre da Self-Realization Fellowship, para a comemoração do aniversário do Yogananda, amado guru que foi uma das descobertas de muito amor dos últimos meses, e ao fim da cerimônia apareceu um bolo (visivelmente com lácteos). Todos conversando em rodinhas, aproveitei para perguntar sobre as atividades do grupo, e, enquanto conversava, um rapaz veio na minha direção e me ofereceu uma fatia de bolo no guardanapo, com um sorriso tão aberto e amoroso que me deu muita, muita alegria em poder aceitar. Aceitar aquele amor, aquele momento, aquela confraternização em nome do guru querido, aceitar fazer integralmente parte daquele grupo tão afim das minhas intenções para essa vida, tudo manifesto no poder dizer sim àquela fatia de bolo. Depois do intenso debate interno de toda essa jornada dos últimos meses, foi um momento muito simbólico e libertador pra mim. 
Eu sigo acreditando e promovendo o veganismo como alimentação mais promotora de compaixão, sustentabilidade e saúde, sigo vegana na minha geladeira e no que entendo como futuro da humanidade, mas agora eu abro exceções pelo bem dos meus vínculos e alegria de viver. Aceitando comer ovolactoveg nas confraternizações, as festinhas deixaram de ser agonia pra mim, me divirto e as conversas seguem promotoras do bem e de novas formas de ver a vida. E sigo buscando o equilíbrio e a coexistência pacífica com o açúcar e com as comidas menos saudáveis, meu calcanhar de aquiles bem assumido, bem aceito e reconhecido (afinal a gente precisa acolher nossa sombra pra que ela possa ser iluminada e transmutada em algo melhor). Buscando equilíbrio, aceitação, flexibilidade.
Com amor e com leveza... sigamos!
Bjs