segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Retrô 2016 nos caminhos de dentro

Oi queridos!
Na véspera de Natal eu estava arrumando a mochila pra uma semaninha na companhia da family e quando vi tava viajando longe, pensando no ano incrível que foi 2016. É engraçado pq, naquele foco por resultados, tinha tudo pra eu achar que o ano foi o maior fail: no direcionamento político, econômico, social, muiiiitos desapontamentos e o meu entendimento de que estamos indo pra longe daquilo que me parece o bem de todos, e em vez disso estamos indo de arrasto na direção de mais privilégios para os já privilegiados. Na minha vida pessoal, como já contei na minha choradinha de pitangas nesse post, não foi esse ano que rolou a almejada ida pro interior. E o suficiente de ocorrências bizarras e tristes pelo mundo a ponto de 2016 ter virado piada nas redes sociais.
Massss, apesar de tudo isso do lado de fora, sim, foi uma ano incrível pra mim, de crescimento profundo por dentro, de sedimentação e refinamento de muita coisa que começou a surgir ali por 2013, foi tomando forma em 2014, criando corpo em 2015 - é impressionante, eu sinto que o entendimento de mundo que eu tenho hoje foi um desenvolvimento muito, muito recente - 2013 eu tava já com 29 anos -, de quando a minha vida pessoal foi ficando menos cheia de drama e começou a me sobrar energia pra ler, refletir, trocar ideia com pessoas que me acrescentavam, meu olhar foi além do âmbito das minhas relações mais próximas. Nesses anos, muita coisa foi construída sobre a base do que me veio como herança familiar e da minha natureza inata, tanto em termos de espiritualidade quanto de posicionamento como cidadã - e esses dois aspectos foram se relacionando e se complementam como uma espiral em dupla hélice (DNA feelings hehe): meu entendimento sobre espiritualidade ganha mais umas nuances, e isso me ajuda a definir o meu comportamento como cidadã; a sociedade me impõe mais um e outro desafio, e assim se torna um treinamento pro meu entendimento e vivência de espiritualidade e me ajuda a refinar o meu entendimento de como a vida funciona.
Eu tive a internet como grannnnde aliada na minha sede infinita de pensar a vida nesses anos, e sou grata pra caramba por isso - sempre que alguém vem dar aquela chineleada na era virtual (pessoas não se encontram mais, gastam tempo só vendo bobagens blablabla), lá vou eu defender e lembrar que toda ferramenta pode ser usada pra coisas mais ou menos úteis, e pra mim a internet foi o canal pra muito do que me interessa na vida - me deu conhecimento, contato com pessoas afins e a informação dos eventos do meu interesse. Sempre cabe o adendo: não ter TV em casa é uma bênção e eu recomendo pra todo mundo! Vc vai ler mais, escutar mais música, ver menos coisa triste desnecessária e notícia tendenciosa conforme a grande mídia quer que vc veja.
Olha o review de 2016, se não tá é bem bom - alguns momentos lindos de aprendizado em espiritualidade que eu vivi esse ano:
- vivências de biodanza, em especial uma maravilhosa com o Mauro Rotenberg, focada no legado do Rubem Alves, na Frater em Porto Alegre/RS;
- palestras introdutórias de Conscienciologia, em Porto Alegre;
- retiros e oficinas aprendendo sobre xamanismo, sagrado feminino e o Sincronário da Paz, em Canela/RS e Porto Alegre;
- aulas da SRF, um mundo que se abriu a partir da leitura da Autobiografia de um Yogue, do mestre querido Yogananda;
- psicoterapia com regressões que me mostraram coisas muito interessantes, em Porto Alegre;
- vivências interessantíssima de constelação familiar, como participante e constelando, em Porto Alegre;
- retiro de 21 dias em São Lourenço/MG, que relatei aqui, e meu primeiro contato mais próximo com a Fraternidade Branca;
- retiro urbano com Marco Schultz e Roberto Crema, em Porto Alegre;
- todas as aulas do meu curso de pós-graduação em saúde e espiritualidade, em Porto Alegre;
- satsang com o Prem Baba, em Porto Alegre, e tudo o que tenho aprendido com ele nos livros, textos e vídeos;
- encontro com o Rogério no Jardim das Esculturas e ouvi-lo contar da sua história de agricultor a mestre em artes marciais, yogui e escultor por vias completamente intuitivas, no interior de Santa Maria/RS;
- jornada sobre cuidados paliativos na prática em saúde, na Santa Casa em Porto Alegre;
- retiro Sorrindo para os Obstáculos no CEBB Caminho do Meio, em Viamão/RS, depois de meses tendo um primeiro contato mais próximo com as ideias budistas através das postagens do Gustavo Gitti;
- psicoterapia com um super foco em busca de propósito, em Porto Alegre, algo que eu não procurei ativamente e que chegou pra mim totalmente como um #ficaadica do universo, através de uma orientação no centro espírita que é meu reabastecimento energético semanal.
E os cursos que me propiciaram aprendizados mais práticos e que me mudaram nos hábitos e no meu posicionamento como cidadã:
- um workshop chamado Faz-me Rir, sobre gestão financeira para pessoas que estão buscando um caminho autônomo, com ideias muito legais de economia colaborativa e alternativas pra viabilidade material fora do esquema do mundo cão tudo pela grana, em Porto Alegre;
- só na minha ONG do coração, a DATERRA, foram curso de produtos de limpeza caseiros, de agrofloresta, de cultivo de cogumelo shiitake, em Estância Velha/RS.
- todos os cursos presenciais e virtuais que mudaram minha alimentação - o mais recente, de doces crudiveganos, pela querida Lis, em Porto Alegre.
- e um infinito de leituras que me mantiveram no caminho de me tornar uma consumidora de alimentos orgânicos em feiras, consumidora de produtos locais e artesanais, cliente de brechós, interessada e iniciante nas artes do plantio, adepta de políticas afirmativas que buscam corrigir desigualdades históricas, buscadora de práticas de sustentabilidade, guardiã de minhoquinhas na composteira, pessoa com intenções de ter bem mais autossuficiência em subsistência do que consigo hoje, participante de financiamentos coletivos, tagarela pró-minorias, turista de experiência e não de resort, colaboradora de ONGs que fazem um trabalho importante de amor e empoderamento de pessoas em situação de fragilidade social, servidora pública apaixonada pelo atendimento e pela ideia de uma previdência pública e do trabalhador, utilizadora e manufatureira dos meus produtos de higiene e limpeza, cozinheira das minhas comidinhas naturebas, blogueira por amor e por aí vai.
A minha vontade era (ops, ainda é), escrever sobre cada uma dessas experiências, já que eu sou CDF e faço anotações em palestras kkkk, é meu jeito de reter as informações importantes e ruminar até que virem insights pra mim. Não vou perder a fé de conseguir escrever mais frequentemente aqui, hehe, e já que esses aprendizados são atemporais, uma hora ou outra vão aparecer post com matutações derivadas desses momentos de 2016.
"Nós temos conversado... e achamos que tá na hora de vc atualizar seu blog!"
Mas voltando pra relação entre espiritualidade e atuação: depois de um período, em 2015, de muitas mudanças objetivas nos meus hábitos, nesse ano de 2016 ficou bem claro pra mim que as mudanças práticas precisam ser sustentadas por uma prática de espiritualidade que dê propósito ao que se faz, que nos permita viver felizes com a nossa rotina, e não com a sensação de aquilo ser um fardo - escrevi sobre esse caminho aqui. E isso definiu algo que passou algum tempo como item na agenda, e que agora nessa semana de férias aconteceu: uma reformulação das páginas iniciais do blog, pra refletir o que já tem acontecido nas postagens - em vez de o foco principal ser mudanças externas, de hábitos (o que era minha intenção quando comecei o blog, naquela vibe de 2015), hoje eu sei que o que realmente me motiva pra escrever, o que sustenta tudo o que a gente manifesta do lado de fora é o que se leva dentro. Eu falava esses dias com um amigo que o que sustenta a nossa resistência e as nossas lutas é o que a gente cultiva dentro, senão uma hora a força pra agir acaba, como seca uma planta sem raiz - pq olha... o mundinho hoje sabe ser desestimulante pros idealistas. Não dá pra o nosso referencial ser o lado de fora de nós.
Sobre aquilo que eu falei antes, de os meus posicionamentos práticos viverem em complementaridade com a minha prática de espiritualidade, dou um exemplo: há várias formas de se ser feminista. Pra mim, a forma de manifestar o desejo de igualdade entre pessoas de todo gênero foi completamente inspirada no meu entendimento do amor como a lei maior do Universo, na noção de princípios feminino e masculino que o xamanismo me deu, na desidentificação com o corpo de dor feminino de que o Eckart Tolle falou tão bem no livro O Poder do Agora. Eu me manifesto com frequência sobre esse assunto, honro toda a luta pra chegarmos até aqui e sei que faço a minha parte pra manifestar igualdade no que deve ser igualitário - mas a paz que a espiritualidade me dá, de me ampliar a visão sobre os processos que acontecem na matrix, me protege de muito da raiva que o histórico de machismo causa em muitas das pessoas que se posicionam pelo feminismo (raiva justificada, mas nociva e acho que pouco produtiva). Sei do mal que a raiva traz pra dentro de nós, das impressões que as falas raivosas causam nas pessoas, e não quero isso pra mim nem quero passar essa impressão quando falo do feminismo. Sinto que tudo funciona bem melhor quando o dentro e fora andam juntos.
Então é isso... muita gratidão a 2016 e vamos ver se o blog começa 2017 com as páginas iniciais atualizadas conforme o que ele é hoje :-)
Bjs a todos, alegrias e muito amor no novo ciclo!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O cará e o olhar sobre a natureza

Oi queridos!
Pensei em escrever esse post depois de um findi aprendendo muito sobre sistemas agroflorestais com nossos amigos queridos da ONG DATERRA, em Estância Velha/RS.
Ainda naquela vibe maravilhosa, de pessoas buscando as mesmas coisas, trocando ideias, sonhos e dicas práticas, tava eu em casa fazendo coisinhas pela cozinha e passo os olhos pela fruteira - e o cará-do-ar que eu tinha trazido da feira orgânica tinha brotado!
Olhem a lindezinha, já devidamente deslocada pra janela pra seguir crescendo!
Aquela cena singela me deu uma ternura enorme. Lembrei de uma outra cena de um ano e meio atrás, quando fiz um curso de horta urbana com a minha amiga amada Milena - ela tinha uma bucha vegetal seca na mão, chacoalhou um pouco e caíam muitas sementes de dentro das fibras, enquanto ela dizia: "olhem como a mãe terra é generosa, eu dei terra e água para uma sementinha só, e agora quantas sementes ela me dá de volta!"
Muitas vezes eu me remeto a essa linda reflexão da Mi, quando vejo a abundância e generosidade manifesta nas nossas plantinhas, que cultivamos aqui na cidade mesmo, ou que o pai cultiva no quadradão dele na praia. Mesmo com a nossa dificuldade de logística atual, ficamos admirados de ver o quanto alguns cultivos dão certo, o quanto são resistentes, o quanto têm inteligência de vida embutida, o quanto dão generosamente.
O quadradão do pai na praia :-D
Essa contextualização é pra falar da mudança de ótica que fez toda a diferença na minha vida. Eu sempre tive contato com ambientes rurais, inicialmente lá na região da fronteira com o Uruguai, na fazenda do meu avô, depois no sítio do pai nos últimos 20 anos, e nesse meio tempo na faculdade de biologia que fiz. Aí, no ano passado, na minha grande revolução pessoal (logo conto como foi), quando descobri a grande mãe que vive na Terra, eu me perguntei: como eu nunca tinha te descoberto antes, Pachamama, mesmo com tanto mato ao longo da minha vida?
Depois fui entendendo - a minha herança familiar é aquela da cultura fronteiriça, o homem forte do campo que resiste à intempérie do clima, laça o gado, olha os campos de cima do seu cavalo, carneia e vive do churrasco. Ouvi muito meu pai contando as histórias de quando os italianos chegaram na fronteira e começaram a plantar arroz numa terra de criação de gado e ovelha - que os gaúchos estranharam, não se prestavam a uma atividade que exigia que se curvassem, como a agricultura. Interessante, né? Fui percebendo o quão patriarcal e dominadora era a relação com a natureza naquela cultura, e assim entendi por que ela nunca tinha me chamado a atenção ao me ser apresentada daquela forma. Nesse ano, 2016, eu fui novamente à Expointer, depois de acho que uns 15 anos da minha última ida. Estava há tempos querendo ir lá pra lembrar dos anos em que o meu avô competia com ovelhinhas de raça - eu era criança e achava o máximo aquela semana, ver os bichos, as competições, o convívio com os primos. Fomos, eu e o Rô. Primeiro nos encantamos e ficamos conversando longamente nos quisques da Emater, muitas pessoas legais e informações sobre agroecologia, saímos de lá cheios de mudinhas de chás e de PANCs. E a parte dos animais, que tanto fazia parte de uma lembrança de infância divertida, foi muito, muito triste de ver. O semblante dos animais, presos em meio metro de corda uns do lado dos outros, os cartazes de "remédio xyz para aumentar sua produção", "melhoramento genético pra dar cria mais rápido", o jeito que os peões lidavam com os bichos, tudo reforçou em mim aquela sensação de que a relação com a natureza que existe nesses meios mais tradicionais é uma de subjugação, de usufruto sem maiores significações.
(aparte necessário: claro que esse entendimento é de uma cultura dominante, tenho certeza de que muitas pessoas que vieram dessas mesmas formações culturais que eu têm uma relação mais respeitosa, integrativa e amorosa com a natureza. Como o meu pai, que sempre amou fazer horta e a arte de se curvar na terra...)
Cursando biologia, era outra a sensação - a de um distanciamento sem emoção, de enquadramento dos processos naturais em sistemáticas racionais humanas. Se algo existe, é passível de ser categorizado e descrito por nós. Nunca, nas aulas de ecologia na facul, ouvi um relato amoroso em relação à harmonia e à beleza do funcionamento dos ciclos da natureza; fico imaginando que não deve ser pq nenhum professor assim sentisse, mas pq existe aquela necessidade de ostentar objetividade no ambiente laico da universidade, não é lugar de falar de amor pela natureza, ora bolas.
Corta para início do ano passado: eu comecei a pós-graduação em saúde e espiritualidade e na primeira aula ouvi falar de reiki. Fiquei em encantada e fui atrás de um curso pra fazer, e uma colega muito querida nossa nos falou do grupo de reiki xamânico em que ela tinha feito a formação. Eu fiquei encucada com o tal do xamânico, imaginando o que seria e se era o mesmo reiki de que tinha ouvido falar na aula. Lá fomos nós pro fim de semana do curso e se abriu um mundo: o mundo da mãe divina, o princípio feminino manifesto na matéria na forma da capacidade de geração, expressa na semente como no nosso útero; o acolhimento, o alimento, a generosidade e a abundância como atributos dessa energia tão maravilhosa que permeia toda a natureza e que faz parte de todos nós. A energia do ki, do chi, do prana, esse princípio energético que permeia o cosmos, é tão melhor gerenciado por nós quando contrabalançado pelo ancoramento firme na energia introspectiva e amorosa da Terra. É o equilíbrio perfeito entre o princípio feminimo e masculino que existe em todos nós.
A partir disso, eu comecei a ver o sagrado e o divino na natureza, e o princípio feminino foi se desvendando em analogias infinitas - a água, tão sábia ao contornar obstáculos e emanar fluidez; as coexistências equilibradas entre as espécies. Eu e o Rô comentamos que a gente só vê fora o que tem dentro - e parece que por isso que os documentários sobre a natureza adoram abordar os episódios de caça e predação, as estratégias de sobrevivência. Faz parecer que a "natureza selvagem" é sempre bruta e inóspita, quando na verdade ela é muito mais pacífica e colaborativa que isso. A energia masculina tá manifesta sim, nos comportamentos mais ativos, de movimento, de alimentação, de defesa; mas se não for pra comer, não se mata. Existe uma frugalidade de hábito nos instintos, uma calma, um senso de equilíbrio. Isso já mostra o quanto nos dissociamos da nossa natureza primeira, tão difícil que é sermos frugais nos nossos hábitos e equilibrados...
Eu sinto muito que o retorno a um convívio mais próximo à natureza, que muitas pessoas têm buscado - e muitas pessoas jovens, inclusive -, tem a ver com essa mudança de ótica. Como se a gente olhasse pra nossa vida de sociedade pós-moderna nas cidades enormes e visse muita loucura, e olhasse pra natureza e percebesse lucidez, e a lucidez nos atraísse. Quando a percepção da lucidez da natureza vem acompanhada da imagem da amada mãe divina em cada milagre de nascimento e germinação, a atração é irresistível.
Já falei aqui sobre essa questão dos princípios feminino e masculino, ambas energias que temos em nós e que são necessárias para o nosso desenvolvimento e plena manifestação. O nosso momento atual de sociedade é resultado de muito tempo de domínio da energia masculina no mundo, e nesse processo a energia masculina saudável foi se distorcendo - e se criou o homem não chora, o não levo desaforo pra casa, o chefe de família, a dominação do mais forte, a competição, a subjugação. Olhem essa explicação do Prem Baba a respeito: "As distorções dos princípios vitais feminino e masculino, que se manifestam como agressividade e submissão, nascem da necessidade de retirar energia do outro. Energia significa amor – essa é a energia que alimenta o universo. O desamor é o que gera as distorções. Assim, a entidade humana, movida pelo desamor, passa a vida tentando conquistar o amor, mas tudo o que ela consegue é gerar mais desamor. O submisso gera mais ódio no agressivo porque ativa nele a violência do masculino distorcido; e o agressivo ativa ainda mais a submissão do feminino distorcido. Esse é o núcleo da guerra neste planeta.”
É essencial que nos demos conta disso, que nós, mulheres, não queiramos manifestar a mesma energia masculina distorcida pra nos igualarmos aos homens, mas sim que estejamos conscientes de manifestar os dois princípios de forma equilibrada, que encontremos a força do nosso feminino e a energia do masculino saudável dentro de nós; é essencial que os homens deixem fluir sua energia feminina sem medo de serem julgados por isso, que equilibrem e sanem o princípio masculino em si. Espelhar a natureza ajuda muito nesses processos de cura interior.
Percebi na minha vida desde muito cedo a presença do "pai": a energia cósmica que dá movimento e ordem ao Universo, ou Deus, como quiser chamar, que na cultura ocidental é bem masculinizada; na minha criação familiar, a energia mais impositiva também foi dominante. Foi muita, muita cura pra mim encontrar na natureza a aceitação, a generosidade, a intuitividade, o amor abnegado da "mãe". É um vácuo emocional não ter um referencial de energia feminina na vida. Lembro do Yogananda falando muito da mãe divina, e percebo o quanto a tradição indiana antiga tinha tanto deidades masculinas quanto femininas, para ilustrar todas as facetas da energia divina, as predominantemente "pai", ou energia masculina, e as predominantemente "mãe", energia feminina. O yin e o yang. No xamanismo, o grande espírito nos conectando com o alto, a grande mãe nos conectando com a terra. Sempre em equilíbrio.
E na Cabala também!
Minha ideia com toda essa história era tentar mostrar pra vcs o que eu senti quando vi o cará brotando. Lindo, cheio de vida. Amor manifesto no ser alimento e saber gerar muito mais alimento a partir de si mesmo, no receber luz e saber transmutá-la em energia. O reino vegetal é uma coisa fantástica. Que a gente sempre tenha gratidão ao tirar do galho as folhinhas que vão virar nossa salada, tirar do pé os frutos que nos dão seu sumo. Essa gratidão é um estado de presença, um reconhecimento do sagrado em todos os seres. É muito mais fácil de entrar nesse estado quando colho meus alimentos direto do pé. Vai ficando mais difícil à medida que a nossa fonte deixa de ser o pé e se torna a feira, onde pelo menos a gente sabe que tá tudo bem fresquinho; mais difícil ainda na quitanda ou no hortifruti do mercado; praticamente impossível nas comidas em caixinhas, tão dissociadas que já são das fontes naturais que as geraram.
de onde vem?
Que a natureza seja cada vez mais poesia e conexão com o sagrado dentro de mim. É isso o que o amor faz, transforma tudo em cor e verso, e quem quiser ouvir os versos que a natureza inspira, eu convido a ouvir o Lucas Santos cantando, e a partir dele tantos outros que o youtube for dando a dica, porque são muitas as vozes cantando esse amor. Convido também a ler sobre o xamanismo, meu canal de conexão com a sabedoria ancestral dos povos da nossa terra. Longa vida aos trabalhos de amor que despertam as pessoas para a natureza!
E o cará, hoje, tá bem feliz empoleirado numa cerca de um terreno num centro de cidade de região metropolitana, que é o nosso laboratório de plantio, hehe. Cada dia mais lindão :-D
Bjs

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sofrência X resiliência e otras cositas más

Bom dia, queridos :)
Eu escrevi algumas coisas ontem, deixando vir o que tava aparecendo na mente sem filtrar muito, e ainda que não tenha ficado muito isento de emoção (ou seja, ainda que eu estivesse julgando alguns comportamentos), achei que valia o registro dessa forma mesmo.
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Uma coisa frequente de se ouvir, quando se está numa busca por autoconhecimento, é que a gente dá muito valor pro sofrimento, que não paramos de falar nas sombras, na criança ferida da infância, que nos melindramos com a vida, que entramos nessa de politicamente correto, etc etc.
Isso porque o padrão da sociedade diz o quê? "Esqueça o que dói e vá ser leve & feliz numa festa com tunts-tunts usando seu entorpecimento preferido" ou "ficar falando de sofrimento é coisa de gente fraca, que não aguenta as pauladas da vida! A gente consegue as coisas na garra, no suor, na lágrima e sai vencedor na vida, isso que é história digna e de valor, ruaaaaaurrrr" (rugido de leão pra finalizar a fala)
Releitura pós-moderna dos três macacos sábios é: não quero ouvir, não quero ver, não quero falar sobre o que dói!
Ainda bem que já tem muitos teóricos do pós-modernismo falando pra eu poder dizer junto: tudo isso é vontade de não lidar um fato inevitável da vida - todo mundo sofre. É só ter um ego pra sofrer. É só ter um corpo pra sofrer. É só ser capaz de manifestar emoções que elas não vão ser sempre as mais pacíficas. Negar isso é varrer a sujeira vergonhosa das emoções não publicáveis pra baixo do tapete. As pessoas costumam fazer isso ao confundir leveza com superficialidade ou confundir força com orgulho. Explico melhor os dois casos:
1) Quem se faz de alegre e leve passa pela vida sem aproveitar as oportunidades de crescimento, e ainda muitas vezes fala pra quem está na jornada sincera de autoconhecimento: ah, tem que viver mais leve, sem levar as coisas tão a sério! Essas pessoas não percebem que tem uma grande diferença entre leveza e superficialidade, não concebem que as pessoas podem ser sim profundas sem serem amargas e sérias, que a leveza verdadeira só emerge do encarar a realidade de cada faceta do seu próprio ser e das circunstâncias da vida... se não se encarou a verdade, a suposta leveza é só uma fuga, um esquecimento superficial do que viemos fazer aqui na Terra.
2) Quem se faz de fortão geralmente acaba cheio de dor física por evitar olhar de frente pras suas dores emocionais. Sente que qualquer pessoa que não fez no mínimo o que ela fez pra "vencer na vida" tá reclamando de barriga cheia, julga as dores diferentes das suas como coisa pouca. Sente que falar sobre as dores do caminho é pura reclamação, coisa de gente mimada, que não conheceu a dureza da vida. Fica cego na sua própria história de força e superação dos obstáculos, não abre espaço pro reconhecimento sincero do que lhe causou sofrimento emocional, e não se dá conta das emoções lhe dando rasteira ao longo da vida, na forma de somatizações, doenças, comportamentos compulsivos. Porque tem outro fato inevitável: a dor que é abafada pra não ser sentida exige reconhecimento. Pode esperar, ela vai aparecer. Afinal, ela só estava debaixo do tapete, ela não sumiu.
A sociedade pós-moderna e esse mito do herói bagunçaram muito a forma de encarar a coragem e a força. Parece que toda admissão de fraqueza é sofrência, vitimismo, mimimi, gente que teve tudo e não reconhece seus privilégios e cai na primeira dificuldade bobinha que aparece pelo caminho; chamam de fracos aqueles que admitem, abraçam e transcendem suas dores. Ahhh se essas pessoas soubessem... se elas soubessem quanta força e coragem existe nessa admissão de não se ser tão herói assim! Porque ninguém é. De novo: sofrimento é inerente à condição humana. De que adianta para a árvore ter a madeira dura e rachar com o vendaval? Não: a verdadeira força tá em fluir. A árvore que se dobra ao vento fica praticamente intacta ao fim da tempestade - analogia mais frequente usada sobre resiliência. Jesus falava disso já há tanto tempo. No meio de uma sociedade de "homens fortes", que não levavam desaforo pra casa, disse que bem-aventurados eram os humildes, os mansos. A única forma de vencer uma dor é vivê-la, admiti-la, reconhecê-la, aprender com ela e deixá-la ir embora sem apegos. A única forma de mudar uma característica em si é também reconhecê-a, admiti-la, pra que ela possa ir embora, ser transmutada em algo melhor.
A sociedade - ah a sociedade, manifesta em maior ou menor grau em todos nós que crescemos sob a sua influência - é muito boa em achar respeitáveis e admiráveis os que se desenvolvem intelectualmente, e esquece profundamente da importância da inteligência emocional. Já que a gente não aprende na escola, depende de cada um ir atrás de estabelecer um relacionamento real com suas emoções. Quem busca autoconhecimento vai descobrindo as armadilhas do tipo 1 e do tipo 2 acima, e vai se dando conta da importância de se aprofundar em si mesmo e buscar a humildade de reconhecer o que é "vergonhoso" dentro de si. A inteligência emocional é a que permite aprender a fluir, a que não se enche de autoconfiança por se achar forte, mas que mergulha profundo em si mesmo e encontra sua autoconfiança ao se reconhecer humano e se amar em sua inteireza. A inteligência emocional é a que permite que se saia desse processo todo sendo mais amável consigo, não esperando força e disciplina militar de si, e daí surge a leveza real. É a que permite que se tenha empatia, que permite ouvir o outro relatando suas histórias sem querer cortar o assunto dizendo "mas isso aí não é nada! Difícil foi o que eu passei e blablabla".
Aparte sobre ser um bom ouvinte: NUNCA, NUNCA diminua a dor de outra pessoa. Nunca diga "tá mas era só um cachorro" quando alguém sofre a perda do seu bichinho; nunca diminua a dor emocional de uma pessoa só porque no seu julgamento passar fome é pior. O sofrimento é subjetivo, é uma vivência sem relação de proporcionalidade com a situação objetiva vivida, porque a escala de gravidade das situações é subjetiva. Cada um tem sim o trabalho e a responsabilidade de não se afundar no seu próprio sofrimento, de não se apegar a ele, de perceber o quanto todas as pessoas sofrem e de ressignificar o que foi dolorido, transmutando em aprendizado. Mas essa autorresponsabilidade não lhe dá o direito de botar o dedo em ferida de ninguém com o pretexto de acelerar o processo alheio de ressignificação. Por favor né.
Era isso por hoje... e segue o baile, sempre olhando pra dentro, sempre na tentativa de profundidade e leveza, de humildade, resiliência e autoamor :)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não vai parar até você aprender

Oi :)
Esse post é um mea culpa pro Universo, pra mim mesma, não sei. Um reconhecimento de humanidade, um desabafo, um acolhimento da minha dificuldade.
Quero contar sobre a vivência mais profunda de expectativa e frustração que acho que já vivi, e que estou vivendo, e a ressignificação que estou fazendo com essas experiências "ruins".
Faz um ano e meio eu decidi que quero voltar para o interior. Voltar, porque quando vim pro RS de Brasília depois de 4 anos morando lá, em 2011, eu já havia decidido que queria uma cidade menor do que Porto Alegre, onde me criei. Foram uns anos morando em cidades pequenas, e as circunstâncias me trouxeram de volta para a região metropolitana de Porto Alegre, no início de 2014. Esse retorno à muvuca foi um movimento muito, muito importante na minha vida e abriu um campo vasto de oportunidades e aprendizados que me ajudou a chegar a quem sou hoje - foram oficinas, cursos, vivências que dificilmente eu teria tido fora da região metropolitana, mas as mudanças foram exatamente me direcionando a uma vontade maior de interiorização, por dentro e por fora - mais contato com a natureza, rotina mais natural e simples, menos fuligem, barulho, radiação, uma horta, menos dependência de dinheiro, honrar e nutrir o que é vida de verdade nessa vida, enfim... esse voltar para o interior que eu quero hoje é muito mais cheio de significado, beleza e ideologia do que foi o ir para o interior de 2011. 
E esse último ano e meio foi então de tentativas de achar uma rota de ida para o interior. Trabalhando num órgão público com agências espalhadas por todo canto, o objetivo se tornou conseguir uma remoção. As primeiras tentativas inocentes foram assim: olhar o mapa, escolher um lugar, conhecer o lugar, gostar e depois ver se tinha como conseguir uma remoção pra lá - só que num órgão com carência de pessoal, só se consegue liberação mediante permuta, na prática. Então, depois que vimos que não adiantava só escolher pelo nosso gosto, passamos a procurar lugares em que tivesse gente disposta a vir trabalhar onde trabalhamos hoje. Em fevereiro de 2016 encontramos duas pessoas, conhecemos a agência delas, fizemos os processos de pedido de remoção, tudo certo - e enquanto os processos eram instruídos (coisa que leva uns meses), fiz tudo o que não era pra fazer: vivi totalmente no futuro, procurando sítios na minha futura cidade, já imaginando em detalhes como seria a vida lá. Aí, 60 dias depois, uma das pessoas que iam trocar com a gente desistiu e a remoção não saiu. Um baque de início, e a noção clara de algo óbvio: não existia remoção em nenhum momento desses 60 dias, e eu fiquei vivendo aquela realidade que ainda não existia. Vivendo bem fora do presente.
Depois disso foram dois meses de muita dúvida sobre o que fazer da vida, de falta de identificação com o local em que eu estou vivendo, muitas especulações sobre o que tentar diante dessa dificuldade de precisar de duas pessoas em algum lugar dispostas a virem trabalhar onde trabalhamos hoje, até que surgiu uma outra possibilidade. Mais uma vez, visita agência, conversa com chefias, monta processos de pedido de remoção, faz as contas de quanto tempo vai levar pra ser analisado. Tava tudo bem certinho entre as pessoas envolvidas, e pelas minhas contas os processos estariam prontos pra decisão no início de setembro. Eu de novo caí na tentação irresistível e já tava visualizando a vida na minha futura cidade, o sítio, as plantinhas, a canga na grama lendo no solzinho do fim de tarde etc etc. Aí em setembro fiquei sabendo que, por causa dos mutirões que sempre acontecem em outubro, por causa da nossa avaliação de desempenho semestral, os processos só iriam para análise em novembro. Mais um baque, mais um tempo aqui.. ok, são só dois meses a mais, tudo bem, tudo bem, o que importa é sair a remoção. Segue a vida, seguem os planos, segue a expectativa. Aí, fim de setembro, a notícia: um dos colegas contou que tava saindo do INSS pra assumir em outro órgão em que foi nomeado. Não ia mais ter remoção, de novo...
E agora?
Contei a história resumida o suficiente pra não ficar cansativo demais, mas teve muitos & muitos capítulos menores e não é exagero dizer que o enredo principal da minha vida no ano de 2016 foi a tentativa de ir embora de onde moro hoje. Claro que muitas coisas aconteceram enquanto isso - viagens, retiros, aprendizados (muitos deles com temas que reforçaram a vontade de ir para o interior), minha pós-graduação que acabou de acabar, momentos importantes vividos no trabalho aqui. Mas sem dúvidas o objetivo maior era a mudança - a mudança geográfica, mas também as muitas idealizações de mudança de hábitos e de rotina que vinham na bagagem.
Só que... com a mudança geográfica não acontecendo, eu fui empurrando todo o resto com a barriga, a rotina e os hábitos viraram um apenas esperar e se distrair. Como eu "já tava indo embora mesmo", não me mudei do apartamento em que moro e que é um bunker de concreto, um isolamento completo da terra e do céu com problemas sérios de infiltração, para alguma casa onde eu teria ao menos um pátio pra plantar e uma varanda pra ler na rede; não inaugurei bons hábitos que pareciam que seriam bem mais fáceis lá no ambiente perfeito, no sítio do futuro; não iniciei nenhuma atividade regular por prazer, aqui na cidade, imaginando que não poderia depois dar continuidade, porque já tava indo embora.
Pensa só: eu já escutei tanto sobre a importância de viver o agora. E foi tudo o que eu não fiz. Eu vivi muito o futuro nesse ano de 2016. E a expectativa cria inquietação e ansiedade. E ansiedade pra mim vira compulsão alimentar (minhas calças jeans já tão sabendo que tá sendo um ano difícil!)...
Vejo todo esse histórico e vem na minha cabeça a Aimee Mann cantando: "It's not going to stop till you wise up", algo como "não vai parar até vc aprender". Esse wise up é uma expressão interessante, wise é sábio, e o verbo wise up tem uma conotação de crescer em sabedoria, subir um degrau na escadinha da evolução do espírito.
E ela diz no fim da música o que parece ser a chave: "It's not going to stop, so just give up". Não vai parar, então simplesmente desista". (conheci a música no filme maravilhoso Magnolia, faz anos, vale muito a pena - aqui é o trecho do filme em que todos os personagens cantam a música)
video
Parece que a novela foi me forçando a largar de mão a expectativa... como se eu fosse desistindo.
Depois do primeiro baque, parei de olhar os sítios à venda. Depois do segundo baque, parei de pensar em como eu queria a futura casa. Depois do terceiro baque, parei de fazer contagens regressivas mentais do tempo que restava aqui. Depois do quarto baque, parece que... não sinto mais nada. Não sei explicar a sensação, nem saber se ela é inteiramente positiva. Parece que de alguma forma a expectativa morreu, mas reconheço dentro de mim a mesma vontade de morar no interior que antes, só que uma vontade mais lúcida, com mais aceitação do que existe hoje e do que pode vir a ser a vida pós-mudança, com suas perfeições e imperfeições. Essa situação de adversidade deixou muito claro pra mim o quanto ainda tenho dificuldades de lidar comigo mesma e isso me ajudou a parar de idealizar a possível ida para o interior como o solucionador de tudo - é claro que onde eu for, vou levar minhas virtudes e desafios pessoais junto, os desafios de dentro não vão se solucionar com a mudança fora. É como se não houvesse mais aquele sentimento de paixão dentro de mim, o sonhar acordada, a projeção de como seria a vida nesse outro lugar, e foi assim só por causa dos "nãos" que foram acontecendo. A letra da música me diz, nesse contexto: "A porrada não vai parar, até vc aprender a não criar expectativa."
É bem doido, pq a gente anda pelo tal caminho espiritual e aprende intelectualmente muitas coisas, mas o que realmente valida tudo isso e coloca os aprendizados à prova é a vivência. Se propor a uma mudança de cidade e de ambiente é algo que acontece porque a gente mudou muito por dentro e quer que essa mudança se reflita fora também - e ir morar num sítio no interior ia favorecer mais e mais mudanças dentro e fora, retroalimentando esse processo todo. É dificílimo pôr a teoria em prática e não sentir expectativa diante desse cenário. Claro que tem todo aquele papo de que a nossa realidade a gente cria por dentro apenas, que quando a gente tá em equilíbrio qualquer ambiente externo é vivenciável em paz, já ouvi e já pensei muito isso, já entrei naqueles questionamentos: será que o meu propósito é me conformar com a realidade que tá se apresentando hoje e eu tenho que aprender a ficar bem e me expressar plenamente por aqui mesmo? Será que não é lícito buscar um ambiente que me alimente mais o espírito e que vibre em maior afinidade com o que tô buscando pra mim? Será que esses "nãos" todos significam que o meu caminho não é pra ser numa cidade menor, ou simplesmente significam que não é a hora da mudança ainda, ou significam apenas que o universo aproveitou a mudança pra me dar um treinamentinho em viver o presente?
A gente pode até saber bem as perguntas pertinentes, mas não tem resposta fácil. O negócio é entregar... não a entreguinha nossa de todos os dias, que essa não serve numa situação de muita mudança ou desejo de mudança - precisa entregar total mesmo, entregar a nossa incapacidade de entrega, entregar a incerteza entre entregar ou se esforçar mais um pouco praquele plano dar certo, entregar a sensação triste de estar com as anteninhas de vinil da intuição muito incompetentes, entregar o medinho de estar forçando uma mudança que não é pra estar no meu plano de vida. E quando a gente entrega e abdica das potencialidades do futuro, o que resta é um nada que é bem parecido com um tudo - resta esse agora, imenso e vazio, pra ser preenchido da vida de verdade acontecendo aqui - minha respiração, a luz do fim do dia indo até mais tarde nessa primavera, os hibiscos do caminho, a minha existência na matéria e a minha existência nesse plano imaterial em que a minha consciência se manifesta, os seres em todos os lugares. Os olhos abrem pro agora quando a gente perde o futuro pelo cansaço. Acho que é o que acontece com quem sabe que vai morrer em breve (inclusive tenho um post a escrever sobre meu amor por cuidados paliativos!) O nada, hoje, me permitiu fazer o melhor desse dia, com todas as suas circunstâncias, aquelas que julgo boas e que julgo ruins. O bom e o ruim é só julgamento meu, no fim; as coisas apenas são o que são. É bom largar de mão o idealismo platônico que nos faz criticar tudo o que não encaixa na nossa ideia de perfeito e nos enche de decepções e de suspiros pelo que poderia ser. E é um desafio achar o equilíbrio entre esse estado de presença, que é pleno e pacífico independentemente das circunstâncias, e a vida prática, as escolhas objetivas que fazem parte do caminho e que são sim importantes pra nos direcionarem para o nosso propósito. Vou tentando :)
Tudo isso pra dizer: não sei onde a vida vai me levar nos próximos meses, geograficamente. Sei que mudança vai haver, no mínimo de moradia, até início do ano que vem, e vai ter no mínimo pátio e horta; e, se for pra ser, vai ter mudança de bem mais que isso. Se é pra ser, não tenho ideia. Se for pra ser, melhor que a mudança me pegue assim, vazia, sem expectativas sobre o que vai ser, pra que a futura realidade me preencha com o que houver de alegrias e aprendizado lá. Vou caminhando na incerteza e tentando fluir com meus passos ainda tão trôpegos, tentando não me machucar demais com os golpes que o meu ego tá levando: sei que esses pedaços que estão ficando pra trás são aqueles que precisam ser desbastados mesmo. Uma amiga querida chama isso de rala-ego, acho tão engraçada quanto precisa a expressão! Nosso eguinho precisa ir conhecendo o seu lugar, pra se colocar a serviço da nossa missão, em vez de achar que é o dono da banca e governar a nossa vida... como diz no Bhagavad Gita: "o ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor".
No fim, parece que o ano até agora foi exatamente o que precisava ter sido. A sensação de que eu poderia ter sofrido bem menos ao longo dele é exatamente a confirmação de que aprendi alguma coisa. E se aprendi, tá bom. Tá servindo ao propósito maior :)
Bjs,


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Conversas - Só há tempo para amar

Oi :)
Tudo bem por aí?
Por aqui acordei escrevente! hehe
Uma vez (há mais de 10 anos!) eu escrevi um texto em que, em paralelo à história que eu contava, eu falei sobre essa arte de escrever. Um trecho dizia assim:
"Difícil ainda mais me é a história inventada... meu substrato é o vivo, no laboratório, nas minhas reminiscências ou nas lembranças mais presentes, no que sinto e escrevo; construo sobre a vida que a existência implica."
Na época eu ainda trabalhava em laboratório de pesquisa - hoje trabalho atendendo público, e em relação a isso segue tudo igual: meu substrato é o vivo. Parece que só sei escrever sobre o que faz parte real da minha vida, de forma que eu sou uma tagarela infinita nas matutações desse blog mas se me pede pra inventar uma história do nada fico no maior vácuo...
Essa lembrança foi pra introduzir uma ideia que eu tive - de compartilhar aqui no blog meus diálogos que aconteceram por escrito. Seja porque eu tenho cara de confessionário, ou porque eu tento exercitar a escuta empática, ou porque eu vivo puxando conversas mundanas pra uma reflexão maior por trás dos fatos, o certo é que com frequência eu me vejo em trocas significativas com as pessoas, daquelas que nos dão insights legais sobre a vida. Aí, pra gourmetizar um pouco a ideia, resolvi criar uma série a partir dos posts que nascem dessas trocas de ideia, e batizei a série de "Conversas". Rá!
Hoje eu acordei disposta a botar em dia o assunto com um grupo de amigas muito amadas no whatsapp, e assisti a um TED talk que uma delas postou há uns dias. Pra quem não tem os 12 minutos pra assistir (vale a pena!), é a fala de um pesquisador contando sobre um estudo que acompanhou anualmente centenas de pessoas ao longo de 75 anos pra saber o que nas suas vidas proporcionou mais saúde e felicidade. E parece que os relacionamentos próximos, profundos e harmônicos são o fator mais protetivo de saúde que se pode ter; o saber que se tem com quem contar nas horas difíceis, saber que não se está só na vida.
Eu ouvindo esse TED e me derretendo inteira de lindeza, fiquei pensando em tantas cenas da minha vida em que eu recebi amor e alimento pra alma a partir dos meus relacionamentos, dos mais duradouros aos mais fugazes em termos temporais - num dia desses no trabalho, uma recém-colega, com quem eu já tinha tido oportunidade de conversar mais profundamente sobre a vida, passou por trás da minha cadeira, me abraçou e me deu um beijinho na cabeça - aquilo foi tão doce, tão lindo, que fiquei pensando em como eu amo e valorizo criar vínculos reais a partir das oportunidades que a vida nos dá de estar perto de pessoas. Como o pesquisador disse na palestra do vídeo, criar e manter vínculos profundos e amorosos é um trabalho de dia a dia, nada glamourizado, não é coisa que se posta em rede social. É um estar disponível, em tempo, presença e empatia, pras dores e dilemas das pessoas, é um exercício de generosidade, é uma vontade de construir junto, de ver de verdade e se deixar ver.
O pesquisador fecha com uma citação do Mark Twain:
There isn't time - so brief is life - for bickerings, apologies, heartburnings, callings to account. There is only time for loving - & but an instant, so to speak, for that.
("Não há tempo - tão curta é a vida - para discussões mesquinhas, desculpas, amarguras, cobranças de prestação de contas. Só há tempo para amar - e, mesmo para isso, é só um instante”).
Ele poderia ter citado "We can work it out" dos Beatles também -
Life is very short / and there's no time / for fussing and fighting my friend
I have always thought / that it's a crime / so I will ask you once again
Try to see it my way / only time will tell if I am right or I am wrong
While you see it your way / there's a chance that we might fall apart
Before too long
(a vida é muito curta / e não há tempo / para futricas e brigas, meu amigo
eu sempre achei / que isso é um crime / então vou te pedir mais uma vez
tente ver as coisas do meu jeito / só o tempo dirá se estou certo ou errado
enquanto você vê só do seu jeito / há uma chance de que a gente possa se separar em breve)
Aconteceu que esse assunto todo do vídeo me lembrou de uma conversa minha de algum tempo atrás. Foi uma situação em que eu presenciei uma disputa entre duas pessoas, daquelas em que uma quer que todos façam assim e outro quer que todos façam assado. Trocando uma ideia com um dos envolvidos:
A gente precisa sempre fazer concessões pela boa convivência e muitas vezes vale mais a pena ser feliz do q está certo. Pra ser feliz a gente tem q estar em paz e nas disputas a paz se vai ralo abaixo, mesmo quando a gente q "ganha" - aí a gente percebe q nunca tem ganhador de verdade nessas situações...
Espero muito que vcs consigam chegar a um bom termo nessa e em todas as questões q surgirem. Nem sempre é fácil a convivência, mas toda situação se apresenta pra nos trazer aprendizado e com as nossas mudanças interiores vai tudo ficando mais harmônico. Fico feliz q seja uma oportunidade bem aproveitada, a vida tá sempre assim, nos tirando da zona de conforto pra nos ensinar... é sempre pro melhor!
Mark Twain disse tudo: não tem tempo pra treta não, gente. A vida é breve, a vida é rara. Não tem nada que pague a paz no coração. Às vezes a gente precisa sim se posicionar, fazer entender qual é o nosso espaço quando ele está sendo invadido (nosso espaço = essa liberdade necessária de cada um nas coisas que só dizem respeito a nós mesmos) - até porque quando a gente não faz isso e estão interferindo nas nossas escolhas pessoais, se a gente não faz nada a respeito a gente perde a paz né? Ser pacífico não é ser passivo e acomodado, é simplesmente saber diferenciar o que realmente é importante pra mim ou não, é saber escolher as "batalhas" em que eu entro. Vejo casais em que a escolha do restaurante onde vão jantar se torna uma batalha. Será que é tão importante assim? Eu sinto que não é tão importante assim, ainda mais se comparar com a importância de viver em harmonia. E tem o outro lado: mesmo sendo em questões corriqueiras da vida, será que é legal quando um sempre cede pra não brigar e a vontade atendida é sempre a do outro? Relacionamentos são construções baseadas num equilíbrio de generosidade e autorrealização. Só se autorrealizar é viver pro próprio umbigo, sem querer saber se as pessoas ao redor estão felizes com a convivência e as escolhas comuns; ser o lado que só cede pra não brigar faz a gente querer ir embora pra poder fazer o que tem vontade sem alguém tolhendo.
Existe hoje uma supervalorização do "ganhar", típico do mundo baseado em competição, em que a maioria da galera ainda vive. Sabe aquela coisa do "não levar desaforo pra casa", do "comigo é do meu jeito", do "eu te avisei"? Em tudo isso tem aquela satisfação do subjugar o outro, do estar certo, do ganhar no argumento (ou na chantagem emocional mesmo). Minha sensação é que a vida vai ensinando que quem vive assim tende à doença e à solidão, e o sofrimento que vem disso vai fazendo seu papel de proporcionar aprendizado.
Então era isso, sigo eu falando do que eu vivo, e esperando que sirva pra mais gente também... esperando sem esperar, hehe, simplesmente oferecendo o que eu acho que recebi de bom na vida e deixando o universo atuar. Esses dias vi escrito assim "Poste como se ninguém estivesse olhando", super me identifiquei haha...
Se alguém tiver vontade de ler a Fê de mais de 10 anos atrás, esse é o texto de onde saiu aquela frasezinha do começo do post.
E viva a independência real do ser humano, já que é 7 de setembro!
Bjs com carinho,

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Tu te tornas eternamente responsável pelo sarro que tiras

Oi queridos :)
Tava aqui pensando sobre como as minhas matutações preferidas da vida rodeiam o tema "propósito".
Quando a gente pensa que não faz muito sentido só nascer, crescer, estudar, trabalhar, reproduzir, morrer, a gente fica atrás de algum sentido pra essa coisa toda da vida humana.
Sem querer restringir uma definição de propósito, eu gosto de pensar que meu objetivo por aqui é ser feliz, e só dá pra eu ser feliz se eu conseguir sentir mais paz dentro e só sinto paz dentro se eu for paz fora também, para o mundo e pra todos os seres. Isso acaba me fazendo cuidar meus atos, pra que eles estejam de acordo com essa minha vontade de agir de forma amorosa e pacífica em todos os níveis (nóis vive dando bola fora mas é isso que nóis tenta! kkkkkkk).
E hoje o objetivo do post é falar sobre uma das formas que eu tento ser paz fora, que é cuidar com o que eu acho graça e com o que eu faço graça.
Eu muito frequentemente digo (até já virou piada interna aqui em casa!) "mas qual que é o propósito disso??" diante de coisas que me parecem sem fundamento... e antes que se diga que a vida fica muito chata se tudo o que a gente fizer tiver que estar imbuído de propósito: isso não significa que absolutamente tudo o que a gente faz tem que servir a uma razão maior, louvável, pelo bem de todos. O propósito pode ser simplesmente se divertir, relaxar, descansar da seriedade da vida prática, e esses são propósitos importantíssimos pra nos manter leves e felizes. Mas é preciso cuidar: minha ação com propósito de alegria despretensiosa está afetando só a mim ou a outras pessoas também? Dentro do nosso quadrado, a gente pode ser o quão despropositado quiser. Mas se estou afetando os outros, COMO eu estou interferindo na vida deles?
Refleti bastante sobre isso esses dias, depois de uma conversa com amigos - um deles contando de uma pegadinha que um conhecido aplicava nos amigos. Ouvindo aquilo e não achando a menor graça, minha reação foi - "mas qual que é o propósito disso??" kkk... em geral nessas circunstâncias sinto que não sou muito compreendida, vêm aqueles comentários "ah a vida não pode ser só seriedade e propósito", "ah era só uma brincadeirinha", "ah que chato se a gente não pode nem dar uma risada de vez em quando".
É curioso pra mim ouvir isso, pq me acho uma pessoa que leva a vida leve e com bastante capacidade de rir, mas de rir COM as pessoas. Como dizer que o propósito de uma pegadinha é se divertir, se não se sabe se a pessoa objeto da pegadinha tá achando graça também? Que valor tem um momento de alegria às custas dos outros? É importante essa diferença entre rir COM os outros e rir DOS outros. A gente só tem o direito de tirar uma com a cara da gente mesmo, e é muito bom não se levar a sério. Mas a gente tem que ser cuidadoso ao entrar no mundo do outro. Claro que quanto mais se conhece alguém intimamente, mais se sabe o que é assunto sensível para aquela pessoa e o que pode ser brincado - esse conhecimento e respeito ao universo do outro permite muitos graus de liberdade nas brincadeiras do dia-a-dia. Falo aqui é da piada ou da pegadinha que acontece sem esse conhecimento mais profundo. Hoje eu busco não compactuar com pegadinhas, me recuso a demonstrar que acho graça de tiração de sarro de terceiros porque a gente nunca sabe o que passa no coração das pessoas, os traumas que elas carregam, o que pra elas é assunto sério. A gente não sabe o quanto tem de dor escondida naquela risadinha sem graça que a pessoa dá - afinal não se vai criar atrito com o amigo/familiar/companheiro por causa de uma piadinha né? Afinal a gente tem que ter "senso de humor", né, e aceitar ser zoado... senão a gente vai ficar com fama no grupo de treteiro, polêmico, sensível demais, "ah não dá pra brincar com o fulano". Então se ignora aquela sensaçãozinha desconfortável, se tenta sair com uma resposta humorística na ponta da língua que reverta a situação e zoe o zoador satisfatoriamente, e lá no fundo se vai absorvendo esses duelos-piada como a forma de interação vigente, o inconsciente vai internalizando a necessidade de defesa - tudo tão, tão sutil, que nem se percebe direito. Vira só uma angústia indefinida pra quem não incorpora naturalmente esse perfil de interação.
É interessante como esse assunto me mobiliza quando surge... eu acredito que o senso de injustiça que me atinge e me faz falar sobre isso é por eu já ter passado por situações o bastante nesse sentido e não sentir a menor familiaridade com esse jeito de conviver. Fui criada numa casa em que não havia tiração de sarro ou pegadinhas, então não aprendi a ser "rápida", a estar sempre ligada pra ver se não tão querendo me pegar, a responder de bate-pronto. Do jeito que o mundo vai, é praticamente um tipo de inocência. Se me falam algo em tom de verdade, eu pressuponho que seja verdade, e não que estejam me tirando. Meu negócio é coração aberto e desarmado, convivência amorosa. Sendo assim, tendo a não achar muita graça nem me sentir muito confortável com isso de estar sempre com um pé atrás como forma padrão de interação - além dos assuntos que nos são delicados e que todos temos. Há pessoas com todos os níveis de sensibilidade, não se pode tomar o todo por aquelas que sinceramente não sentem nada quando são alvo de piadas e pegadinhas, que jogam bem esse jogo do troçar e ser troçado - assim como não se pode tomar todos os negros por aquele que diz que não se afeta com o racismo humorístico nosso de todo dia, que sabe que piadas são ditas apenas com intenção humorística e não devem ser levadas a sério.
Sinto que as pegadinhas e as tirações de sarro genéricas vêm do mesmo saco que as tiradas machistas, racistas, homofóbicas (com muita frequência a piada vem com tons de preconceito contra algum desses grupos). É bullying, em diferentes formatos e graus... é manifestação sutil daquele nível de consciência em que é necessário se sentir mais que o outro pra se sentir bem. A reação das pessoas, diante de alguém que chame atenção para a responsabilidade nesse tipo de brincadeira, muitas vezes é a mesma reação de quem é chamado atenção por sua piadinha preconceituosa "ah mas eu só tava brincando, fulano sabe que eu considero ele pra c*, ele frequenta a minha casa inclusive". Será mesmo que fulano sente só alegria e diversão naquela brincadeira? E mais: será que o troçador se deu conta de que está contribuindo para a manutenção da cultura que gera os comportamentos ostensivamente ofensivos e doentes?
Porque sim, existe a responsabilidade nos casos concretos, que dependem do quanto a gente conhece o interior do outro, e a nossa responsabilidade como mantenedores de uma cultura em sociedade. Essa figurinha aqui embaixo é a coisa mais didática que já encontrei para explicar por que a pegadinha e a piadinha podem ser sim socialmente nocivas:
Essa rotina de fazer social tirando sarro é alimento para essa cultura, para que se perpetuem esses comportamentos que envolvem formas sutis de subjugação - quer ver um exemplo bizarro? É o trote da faculdade. Os bixos ficam lá aceitando situações que nem todos acham confortáveis, porque encarar bem o trote faz parte de se integrar no grupo, fazer amigos entre os colegas novos, se dar bem com os veteranos. E por dentro, começa a se formar o recalque: "faz parte ser courinho nesse momento, mas tudo bem pq no semestre que vem vai chegar minha vez de ser o que fica por cima". Aí já vão arquitetando tudo o que vão fazer com os pobres futuros bixos, que não tinham nada a ver com a formação desse recalque, e assim se perpetua a regra de descontar o que se viveu. "Eu aceito rirem de mim, pq aí vou poder rir dos outros também". (Se quiser ler uma história de como o piadismo irresponsável pode ser danoso, o início desse post conta a história do que fizeram com a maior doadora de leite materno do Brasil, a título de humor.)
Mensagem implícita lamentável nessa vida de piadismo irresponsável...
Parece que estou exagerando, que estou fazendo tempestade em copo d'água? Pode parecer. Porque isso tudo acontece num plano muito sutil. É a base da pirâmide de comportamento que sustenta o mundo de competição, de jogo de poder em vários níveis. Como toda base de pirâmide, é um comportamento amplamente disseminado na sociedade e é tão comum que as pessoas mal o percebem, não se dão conta de que há uma alternativa a esse comportamento. E depois se questionam pq existe tanta animosidade no mundo, pq a gente vive como se tivesse que estar sempre se defendendo dos outros. Esse artigo é um maravilhoso complemento à reflexão.
Imagina se o mundo fosse diferente - se as pessoas se honrassem nas menores interações, se acolhessem em vez de rirem umas das outras, se a alegria surgisse de reconhecimentos em comum: a beleza inimaginável que brotaria dos encontros? O crescimento, a irmandade? Não é ilusão. Eu sei que essa minha tendência a naturalmente não achar graça de troçar com a cara alheia é um dos fatores que faz meus amigos compartilharem comigo situações difíceis, me contarem das suas vidas num aspecto mais profundo. De alguma forma, pelo menos o inconsciente deles já sabe que eu não vou fazer pouco nem fazer graça daquele momento de abrir a alma. Sei que a gente pode chegar num ponto de coletividade em que a gente vai poder andar sempre de alma aberta, não vão ser mais necessários os escudos que levantamos pra proteger o que há de mais sensível em nós.
Depende de cada um, da consciência sobre nossos atos, da responsabilidade que assumimos diante da realidade que criamos... e vamos rir, rir muito, nutrir a alegria do coração em paz, do amor que encontra e comunga :) como eu li em uma canalização esses tempos: "E, enquanto despertam neste tempo, seus dons despertarão e habilitarão a outros. Utilizando as ferramentas do riso, do canto, da dança, da alegria, da confiança e do amor vocês estarão criando uma profunda onda de transformação que transmutará as limitações do antigo mito da dualidade e da separação, realizando o milagre da PAZ E UNIDADE NA TERRA."
Bjs com carinho,


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre ver vida no outro

Oi queridos :)
Hoje me deu vontade de escrever só porque tava aqui rolando o feed do facebook, entre uma tarefinha de computador e outra, vi essa figurinha batida:
Na hora, sabe lá pq, meu coração se tomou de tanta emoção, eu que já ouvi muitos "namastês" na vida, que percebo o quando essa expressão se tornou meio dita sem sentir. É que namastê só faz sentido se sentir!
Porque a vida muda quando a gente vê Deus no outro.
Mesmo pra quem não usa a palavra "Deus".
Porque a vida muda quando a gente vê vida no outro: simples assim.
Qualquer pessoa que passa por nós: ali vai um conjunto de construção de individualidade igual a vc. Ali existem emoções e pensamentos e um corpo que anda pela rotina mais ou menos cansativa, mais ou menos automática, mais ou menos desejada por aquele ser; naquelas emoções e pensamentos vive a memória de uma história de vida, certamente com seus traumas, com suas boas lembranças; as marcas daquele rosto, aquele jeito de andar mostram as circunstâncias da vida atual e dos anos passados; os olhos dizem aquelas emoções e pensamentos, mais eloquentemente que as palavras pensadas para serem ditas. É só ter olhos de ver... é só sintonizar o olhar.
O meu queridão (sinto que ele vai aparecer com frequência nos posts daqui pra frente... kkkkk) Eckart Tolle fala que a gente costuma interagir com papéis, não com pessoas. Vou no mercado e entro na fila do caixa e espero a minha vez - pra mim, se estou vivendo no automático, a pessoa que está ali é simplesmente "o caixa": alguém que desempenha a função de me permitir sair daquela fila e ir embora o mais rápido possível do mercado. Se não passar as compras rápido, se parar pra fazer alguma outra coisa antes da minha vez, vou ficar impaciente. Se não me olhar pra dar bom dia, vou pensar que é mal educada e que aquele mercado deveria exigir educação e cortesia de seus atendentes. Se jogar minhas mercadorias pro outro lado da esteira sem cuidado, vou ficar silenciosamente indignada com o descaso.
Mas... se eu vejo ali uma pessoa, em vez de "o caixa", tudo muda. Olha bem para aqueles olhos: o que eles dizem? Preocupação? Cansaço? Atenção ausente? Será que aquele ser queria estar ali, ou simplesmente não tem opção e precisa pagar contas todo mês? Será que aquela pessoa é uma mãe com um filhinho doente na casa da vizinha? O que será que ela faz quando sai dali, quanto trabalho será que ela tem em casa? Quanto tempo será que ela leva pra chegar em casa do trabalho? Ela é uma pessoa que precisa ir ao banheiro, se alimentar, contatar seus familiares, descansar uns minutos ao longo da sua jornada de trabalho. É absolutamente natural que ela pare eventualmente entre um atendimento e outro. Ela é gente. Ela é nós em outro corpo, com outra história. Isso é empatia.
Empatia muda a vida. Empatia nos tira da posição de críticos, de demandadores de eficiência. Nos permite ver o outro com a mesma compreensão e indulgência com que vemos a nós mesmos. Infelizmente, parece que muitos graus de empatia a gente só cria quando passa pela situação que antes a gente só via de fora. Essa historinha aí do caixa de supermercado é a história do que eu sentia e pensava quando ia no mercado, antes e depois de eu começar a atender público no trabalho. Percebendo as demandas do público sobre nós, num ambiente de escassez de colegas e quantidade de trabalho muito acima da nossa capacidade, eu vi o quanto eu fazia aquelas mesmas demandas quando estava no papel "a cliente" e o quanto elas eram potencialmente injustas. Hoje eu faço o possível para ver as pessoas por trás dos papéis. Quanto mais corrida a vida, no jogo da sociedade, mais o mundo nos incentiva a só ver papéis e exigir perfeição na execução das funções; nos incentiva também a sermos apenas o nosso papel e nos cobrarmos a mesma perfeição. Os seres se perdem... até que a gente faça essa revolução no nosso olhar.
A Júlia, minha médica virtual preferida, fez esses dias um apelo pra gente não esperar que a empatia brote naturalmente só por termos vivido a mesma situação. Uma vez feita a revolução no olhar, uma vez tomada a consciência da necessidade de empatia, vamos ver de fato o mundo ao nosso redor, vamos perceber tudo o que acontece com as pessoas e que não queremos pra nós, vamos compreender os caminhos tantas vezes cruéis que os levam a alguns comportamentos que julgamos maus. Vamos encher nosso olhar de empatia e amor :)
Parece que todo caminho espiritual nos incentiva a ver de verdade o Ser no outro. O Namastê da tradição indiana; o "In lak'ech" dos maias (eu sou o outro você).
Sabe até o que eu me lembro agora?
Aquele filme Avatar, e a palavra que o povo azul de Pandora usava pra se cumprimentar,
que significava "eu vejo você".
Bonito isso, né?
Dar oi dizendo eu vejo você,
reconheço o que faz de você meu igual
e o q faz de você único no mundo,
percebo as suas lutas pessoais,
seus ideais e sonhos,
suas fragilidades,
olho pra vc e realmente o vejo,
e por isso lhe cumprimento com respeito, admiração, carinho.
Tem um videozinho bem lindo que fala de empatia de forma muito, muito didática, tanto pela explicação quanto pela animação bem feita, divertida e sensível. Pra quem não tiver tempo de dar o play aí embaixo (vale muito a pena!), fica um resuminho do que ele traz: 
Empatia gera conexão.
Pessoas com capacidade empática conseguem tomar perspectiva e têm a habilidade de reconhecer a pespectiva do outro como a verdade dele; não julgam e reconhecem emoções em outras pessoas. Ter empatia é sentir COM as pessoas.
É como uma pessoa que está num buraco escuro e grita pra cima, tô presa, tá escuro, tá demais pra mim, e você diz oi, vou descer, sei como é aqui embaixo e você não está sozinho. Empatia é uma escolha, e é uma escolha vulnerável, porque, para me conectar com você, tenho que me conectar com um lugar de mim mesma que conhece aquele sentimento.
Se eu compartilho algo muito, muito difícil, em vez de uma solução pronta às vezes é melhor dizer, "nem sei o que te falar, mas que bom que você me contou", porque raramente é uma resposta que vai fazer as coisas melhores e, sim, a conexão.
A vida é tão rara, como disse o Lenine numa das músicas mais lindas que existem. E isso que eu nem falei da empatia com toda forma de vida, porque esse post já tá, pra variar, comprido de doer...
Vamos nos ver uns aos outros, de verdade <3
Bjs com carinho